Venham mais 70

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Agora que já está tudo mais calmo, que já lá vão os achincalhamentos aos 70 e ao seu manifesto a favor da reestruturação da dívida, é importantíssimo que se diga que Portugal é, de facto, o líder do preconceito.

Por mais esforço que faça para encontrar, a cada dia, um país diferente, o peso dos costumes acaba sempre por vir ao de cima. E sem surpresas: são sempre os mesmos, da mesma forma, a empoleirar-se para, com tanta soberba, tentar desfazer as coisas.

Em Portugal, não se discute, não se debate, aquilo que é verdadeiramente relevante é resolvido no conforto dos gabinetes, em segredo, para ninguém ouvir, é tudo feito à boca pequena.

Reestruturação da dívida?! Melhor nem falar alto sobre o assunto, melhor que ninguém ouça, até porque ninguém sabe muito bem o que é e assim é muito melhor, ficam todos na mesma. Vivemos assim num país pequeno onde cantam sempre os mesmos. Os mesmos que ainda por cima não sabem ler, confundem, desinformam e cospem preconceito, talvez porque não sabem do que falam, nem o que dizem.

Em Portugal, confundem-se os papéis e reconhecem-se os papistas ao longe. É natural que Passos Coelho, primeiro-ministro deste país, se descole deste manifesto, era expectável que não viesse, agora, perante este movimento, desdizer-se e fazer tábua rasa a tudo o que defendeu em quase 1000 dias de governo. É a ele, conforme se viu pela evolução das yields da dívida pública, que os investidores escutam. Não, desenganem-se, os juros não continuaram a descer por falta de mérito do manifesto, mas porque, provavelmente, os mercados estiveram atentos à reação de Passos Coelho.

Também se entende, ainda que soe a despotismo, que Cavaco Silva tenha exonerado os seus dois assessores, por não ter sido informado previamente da participação de Vítor Martins e Sevinate Pinto no manifesto.

Agora, já é uma completa aberração ver gente insultar os que decidiram, a bem do país, promover uma discussão sobre o futuro. Basta ler o Manifesto (disponível aqui) para verificar que se trata de uma proposta razoável. Nenhum dos 70 subscritores do documento defende um perdão de dívida, ninguém propõe que o governo se faça de esquecido e deixe de pagar o que deve. Nenhum defende um Portugal caloteiro, como muitos tentaram, de forma pouco honesta, sugerir.

Aliás, a proposta deste grupo consiste no debate da reestruturação da dívida num contexto europeu: a reestruturação deve ocorrer no espaço institucional europeu, está lá escrito para quem quis ler. Está, portanto, claro que estes 70 estão longe de constituir um bando de irresponsáveis. O que estes 70 entenderam fazer, e bem, foi lançar a discussão, apresentar uma alternativa e, de forma bem moderada, sugerir outro caminho para um país enterrado em dívida, uma solução para um país que tem que crescer e criar emprego para poder continuar a honrar os seus compromissos.

Por mais que Maria Luís Albuquerque garanta que a dívida do país é sustentável – é seu dever fazê-lo -, está à vista de todos que com os níveis de crescimento previstos para a economia portuguesa jamais sairemos daqui. Isto se as previsões se confirmarem, porque em economia, como bem sabemos, as crises vão e voltam. Por mais que o governo insista na bondade do modelo de crescimento da economia portuguesa – faz parte que o diga -, é sabido – todos sabem – que uma nova reestruturação da dívida é inevitável. A discussão já começou.

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