Faturar 1,12 milhões a vender casas. Andreia Falcão conta como foi

Entrevista - Andreia Falcão

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Chega a parecer impossível de tão fácil que parece. Faturar 1,12 milhões de euros em comissões a vender casas. Em Lisboa. Em 2013. Em plena crise do sector imobiliário. Foi assim com Andreia Falcão, que se destacou como a melhor mediadora da Remax, ultrapassando o famoso Nuno Gomes, que foi, durante cinco anos, o melhor vendedor da Europa.

Aqui, o vídeo da entrevista

“Estes 1,12 milhões de euros é o reporting de comissões total, não foi o que ganhei. De maneira nenhuma”, começa por explicar a antiga professora de matemática de 46 anos. “Desse montante, há uma parte que fica com a Remax Portugal, outra parte para a Remax Expo – a loja onde trabalho -, e o resto fica comigo”, detalha. E, afinal, quanto é? Metade? “Podemos pensar isso. Na realidade, acaba por ser um valor que nada tem a ver com um milhão de euros”, sublinha.

Certíssimo, Andreia Falcão não entrou para o clube dos milionários, mas a dupla que faz com o seu marido, Miguel Valadas, foi, sem dúvida, a mais bem-sucedida de entre os cerca de 3000 agentes da maior imobiliária do país. À semelhança de qualquer outro mediador imobiliário, Andreia não tem salário: vende muito, ganha muito, não vende, não ganha.

Não foi a vender casas aos portugueses que se divorciam, casam ou têm filhos, que Andreia Falcão fez dinheiro. Esses continuam a existir, voltaram a comprar casas, de 100 mil ou 150 mil euros, mas pesaram muito pouco. 95% dos negócios foram feitos com chineses. O sucesso de 2013 deveu-se aos golden visa, o programa do gGoverno que confere uma autorização de residência em Portugal a quem investir 500 mil euros ou mais na aquisição de um imóvel. Foram estes investidores, cerca de uma centena, que arrancaram Andreia Falcão da mediania: o rendimento médio anual de um mediador Remax foi, em 2013, de 22 mil euros.

“Ainda em 2012, apostámos muito em trabalhar com estrangeiros porque sabíamos que isso seria uma oportunidade para trabalhar o mercado imobiliário. Fizemos protocolos com alguns advogados e fomos à procura de clientes internacionais”, explica a mediadora, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Foi por causa deste trabalho de antecipação, sobre o que já existia de semelhante noutros países e o que deveria ser feito para captar a atenção dos chineses, que as coisas correram bem. Além de procurarem casas de valor igual ou superior a 500 mil euros, porque é isso que lhes permite ter autorização de residência, os chineses procuram vista de rio, ou mar, preferem moradias a apartamentos – “eles têm muito o estigma do terreno, da terra, querem espaço” – e gostam de coisas novas.

Daí a zona da Expo, em Lisboa. “Foi um dos melhores mercados, ainda que, neste momento, já existam poucas casas novas à venda na Expo. Já temos que recorrer aos imóveis em segunda mão. Ou então, vamos para a Linha de Cascais, onde também há muita habitação nova e mais moradias”, adianta. O melhor negócio do ano foi, porém, um prédio junto à Casa dos Bicos, em Lisboa, que foi vendida a um chinês e à sua filha por 2,4 milhões de euros. O comprador procurava apenas o equivalente a dois golden visa, ou seja, um milhão de euros, mas “ficou muito agradado com a rentabilidade que poderia ter com aquele prédio, que estava todo arrendado”.

A propósito de rentabilidade e de chineses, Beatriz Rubio, a presidente da Remax Portugal alertou, em entrevista recente ao Dinheiro Vivo, para o facto deste tipo de investidores exigir uma renda garantida a cinco anos, um risco assumido pela imobiliária.

Mas Andreia Falcão diz desconhecer esta prática e assegura, aliás, nunca ter dado qualquer espécie de garantia a nenhum investidor chinês. Segundo explica, quando investem em imobiliário, os estrangeiros não pretendem morar cá, pelo que faz sentido que procurem alugar o imóvel para o rentabilizar ao longo dos cinco anos impostos pelo programa.

Agora, acrescenta a mediadora, “nunca fiz nenhum contrato que dissesse que garantimos alguma rentabilidade. Não assumo qualquer responsabilidade a não ser a de tentar encontrar um inquilino para o imóvel, isto se ele não estiver já arrendado. O comprador deixa um contrato de angariação de arrendamento assinado. E somos remunerados por esse serviço, tal e qual como no mercado de nacionais”.

Andreia refuta, assim, o favorecimento dos investidores estrangeiros. E frisa que trabalha os chineses, que compram, mas também os portugueses, os vendedores. Quando o interesse dos chineses passar, o que não deverá acontecer, segundo as suas previsões, ao longo deste ano e do próximo, é com os portugueses que contará.

De olhos postos nos russos e nos brasileiros, Andreia coleciona para já, chineses, homens de negócio, entre os 35 e os 40 e poucos anos, com filhos em idade escolar, “que procuram, sobretudo, liberdade para circular”. E são “duros a negociar”, “mas nós sentimos quando eles gostam verdadeiramente de um imóvel, quando estão mesmo dispostos a comprar”, conta. Chegam com o tempo contado, porque obtêm autorização para sair da China por poucos dias: “Trabalhamos muitas horas seguidas com pessoas com as quais temos que estar muito atentas”.

Desconfiados? “Não. Sentem-se desconfortáveis. Imagino-me a ir à China comprar uma casa e só ter quatro ou cinco dias…”, responde.

Há pouco mais de dois anos a vender casas, pela Remax, Andreia Falcão não pensa em voltar às aulas de matemática: “Poderei sempre ensinar os meus filhos, três meus e dois do coração [do marido]. Gosto muito da minha profissão. Há uma coisa fantástica, não tanto com os chineses, porque não há tanta emoção, que é ir com um cliente a uma casa, qualificá-lo e perceber que era mesmo isto que ele queria”.

E Andreia, já encontrou a casa dos seus sonhos? “Não, é alugada, tem vista de rio, é grande porque somos muitos, mas sinto que esta ainda é uma casa de passagem

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2 thoughts on “Faturar 1,12 milhões a vender casas. Andreia Falcão conta como foi

  1. A remax já esgotou a “fantasia” Nuno Gomes. Agora aparece com esta. Sim senhor.
    Podemos comprovar o elevado rendimento da maioria dos agentes da remax:
    – São clientes do stand “charuto”
    – Frequentam o restaurante “marmita”
    – Vestem na boutique “Lelo”
    – Passam férias no hotel “fora cá dentro” (de casa)
    – O valor das suas poupanças vale tanto como as acções do Bes
    Enfim têm tanto exito que nem largam a remax. Por isso é cada vez mais dificil ser “funcionário” da remax.:):):):):)

  2. De facto, deverá ser bom facturar estes valores acima de 1M. quando se paga para facturar (trabalhar, vá) De resto, a Seg Social & Fisco devem bater palminhas. Estes modelos americanizados de empreendedores-pagadores-na-casa-de-outrem revelam-se para alguns um óptimo maná e ninguém duvida do esforço feito seja com chineses ou transmontanos. Salvé ó portugal à comissão.

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