Cat

Se eu cantasse gostaria de cantar como a Cat Power. Melhor, se eu pudesse escolher, de todos os músicos do mundo, como gostaria de cantar, seria como a Cat Power.
Vi-a em 2008, no Coliseu, num camarote de frente para o palco. Com duas amigas da minha vida. Numa noite da história da minha vida. Chovia a potes e cheguei a casa completamente encharcada. E fiquei apaixonada. Ouvi até não me cansar todos os discos. Ouvi em repeat o seu cover do Wonderwall (Oasis) numa viagem de comboio Londres-Manchester, que fiz sozinha para ir ver Leonard Cohen na Opera House. Prefiro-o ao original. Adoro a voz e o jeito descomprometido. Sempre disse que nunca meteria os pés no Super Bock Super Rock, mas acho que vai ter que ser ❤

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20 elefantes na Pont des Arts

PontdesArts

Já não vou a Paris há muitos, muitos anos. O avião parte demasiadas vezes para Londres. E ainda bem. Em junho, lá estaremos outra vez. Mas, há uns dias, calhou em conversa “E se fossemos a Paris?!”. E agora leio esta notícia sobre a campanha para acabar com a tradição dos cadeados do amor na Pont des Arts. Eu passei por lá, não prendi nenhum cadeado às grades da ponte, nem atirei a chave ao Sena, mas lembro-me tão bem de ter ficado impressionada com a quantidade imensa de promessas de amores eternos feitas em Paris. Segundo o britânico The Guardian, são cerca de 700 mil cadeados, 93 toneladas, mais ou menos o peso de 20 elefantes. Isto numa ponte construída em 1804 para pedestres. Faz sentido o apelo das autoridades para que os enamorados adiram aos cadeados virtuais, os love locks, mas não tem a mesma piada… ❤

Poças Esteves: “A intenção é a ARC ter rating soberano de países como Portugal”

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Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel/TSF
Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

A ARC Ratings foi criada no início do ano. É a mais recente agência de rating internacional e pretende distinguir-se das três grandes: Standard & Poor’s, Fitch e Moody’s. Resultou de uma conjugação de esforços das companhias de rating de Portugal, Brasil, Índia, África do Sul e Malásia. O economista José Poças Esteves assumiu a presidência da ARC Ratings depois de anos à frente da Companhia Portuguesa de Rating. É também sócio-gerente da SaeR, a Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco, fundada por Ernâni Lopes.

Na quarta-feira, Portugal emitiu dívida a 10 anos sem a ajuda dos bancos, pela primeira vez desde que está sob intervenção da troika. O Estado conseguiu emitir a quantidade desejada – 750 milhões de euros -, o juro pago foi o mais baixo desde 2005 e a procura superou a oferta em 3,47 vezes. Foi um êxito ou o governo jogou pelo seguro? Continue reading “Poças Esteves: “A intenção é a ARC ter rating soberano de países como Portugal””

Passos não é o nosso paizão

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Sílvia

O estado de emergência do país tem sido desculpa para muitas medidas, para o governo cometer muitos erros, esquecendo que os resultados rápidos não bastam para governar um país com eficiência.

Se Passos Coelho tivesse lido Henry Hazlitt e a sua Economics in One Lesson – uma introdução à economia de mercado, afinal, a economia do nosso primeiro-ministro – teria ficado a saber que há uma regra básica: a arte da economia consiste em olhar não apenas para o imediato, mas para os efeitos mais longínquos de qualquer ato ou política.

Só esta distração justifica que o governo continue a atirar certas medidas para cima de todos nós. Isso e a urgência de fazer receita, de encaixar dinheiro, rapidamente, que ajude a tapar o enorme buraco que é a dívida pública.

Ao longo desta semana, foi avançada a hipótese de ser lançado, em Portugal, o chamado imposto das batatas fritas, ou seja, um imposto sobre produtos com elevadas taxas de gordura, sal ou açúcar.

Este imposto, que existe em alguns países – há uns anos, em Nova Iorque, proibiu-se a utilização dos tickets de refeição para comprar bebidas açucaradas -, trará receitas fiscais imediatas, ajudará a suportar o défice da Saúde, mas traduz também um Estado paternalista, faz de Passos Coelho um verdadeiro paizão.

Uma situação no mínimo bizarra, já que o primeiro-ministro passaria a ser, por um lado, o político liberal que quer reformar o Estado e a Saúde em Portugal e, por outro, o político paternal, que se compromete – sem poder cumprir – a cuidar da nossa saúde, da nossa alimentação e, quem sabe o que virá a seguir, da vida de todos os cidadãos.

Esta situação poderá gerar, inclusive, alguma confusão sobre quem é o verdadeiro Passos Coelho. Se o político liberal e frio, financeiro, empenhado em endireitar as contas do país, se o pai de família, que se dedica de corpo e alma aos seus semelhantes.

Volto ao início e à importância de pensar para além dos efeitos imediatos de qualquer medida. E insisto no perigo do Estado paternalista, pois recuar é, nestes casos, muito mais difícil.

Incentivo zero para trabalhar melhor

Opinião

Artigo publicado no Diário de Notícias

Os portugueses são um povo compreensivo, têm compreendido muita coisa, mais que não seja porque não têm outro remédio. Nos últimos três anos, levaram com a maior vaga de austeridade de que há memória, empobreceram, fizeram sacrifícios e corrigiram estilos de vida.

Mas não foi suficiente porque, apesar de tudo, os portugueses continuam a viver acima das possibilidades do país. Continuam a gastar mais do que o país produz. Ao fim destes três anos e depois de 11 avaliações ao Programa de Assistência Financeira, é isto que o FMI, uma das entidades que integra a troika, tem para dizer, que em Portugal continua a existir uma elevada rigidez no mercado laboral e que os empregadores devem ter mais liberdade para baixar salários e despedir individualmente. Se isso não acontecer, diz o FMI, comprometer-se-á a recuperação do emprego, ou seja, o desemprego poderá voltar a aumentar.

É compreensível. Sim, os portugueses entendem que a recuperação do emprego depende da saúde das empresas e que nesta interfere, não só, mas muito, o peso da fatura dos custos com o trabalho. Os portugueses até percebem que a competitividade das empresas será tanto maior quanto menor forem os salários dos seus trabalhadores. Não é assim na China?! E até conseguem entender, mais que não seja por falta de alternativa, que seja mais fácil os empresários cortarem nos salários do que noutro tipo de custos. A conta da eletricidade, por exemplo, outra enorme parcela dos custos das empresas, escapa ao controlo dos empresários.

Mas neste caso, os empresários e o Governo, que gere o país – o conjunto de todas as empresas -, terão de compreender que, assim, o estímulo dos portugueses para trabalhar mais e melhor é cada vez menor. Num país onde a expectativa é, na melhor das hipóteses, a de um congelamento dos salários, compromete-se a produtividade, condena-se a economia a um triste ramerrame.

Está nos livros de economia que a remuneração é o principal incentivo para se trabalhar mais e melhor. E também está nos livros de economia que cortar salários é o grau zero da gestão. Por mais grave que seja a crise, quando a única solução é cortar salários é porque a gestão foi má, muito má. É importante que, no meio da urgência por que passa o país, jamais se desculpabilize a decisão de cortar salários. A compreensão dos portugueses também tem limites.

Os morangos desta vida

morangos

Vamos fingir que acordámos hoje num país diferente. Com o mesmo sol e as mesmas praias, não me entendam mal, mas cheio de fábricas que exportem até não poder mais, e com os campos cultivados de norte a sul. Hoje, tudo era diferente. Vivíamos realizados, pessoal e profissionalmente falando, a plantar tomate ou morangos, a produzir com as nossas próprias mãos. Porque, ao contrário do que diz o antigo banqueiro João Salgueiro, ontem, em entrevista ao Diário Económico, os portugueses sabem e até gostam de usar as mãos, as duas. Há muito que trabalhar num balcão de um banco deixou de ser o emprego de sonho da classe média. Neste nosso país, as empresas cresciam, os empresários eram competentes, sabiam o que faziam, tinham estratégia, visão e antecipavam os problemas. E pagavam aos trabalhadores na justa medida do seu valor. Nem mais, nem menos. E estes acordavam todas as manhãs com uma vontade imensa de apanhar morangos de sol a sol. Ahhh, desculpem! Não é possível. A perspetiva que existe é a de mais um corte de salários. Queres morangos?!…

O melhor é o que aí vem

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

O governo sabe que não causou alívio ao anunciar que não pretende efetuar novos cortes nos salários e pensões. No fundo, já todos sabíamos que não iríamos voltar a ser chamados para suportar, de forma direta, mais um esforço de redução do défice. Há algum tempo que sabemos que não há espaço para mais austeridade em cima de toda a austeridade imposta nos últimos três anos.

Mais uma vez, o governo chegou carregado de más notícias. Nesta semana, ficámos a saber, agora com mais certezas, que muito dificilmente voltaremos aos níveis de rendimento de 2010 e que alguns cortes serão transformados em novos cortes, inferiores, mas permanentes. Más notícias, sob a forma de aviso, já que o detalhe ficou para mais tarde. Nada de novo. Passos Coelho não surpreende porque não sabe, nem quer fazer diferente.

Seria este mais um momento, aproveitando a retoma da economia, para o governo tentar melhorar um pouco a vida de quem trabalha e, quem sabe, melhorar a sua ideia sobre o futuro. A economia precisa de menos impostos sobre o trabalho, que restringem o emprego e a competitividade, e de mais estímulos – fiscais -, depois de uma contração abrupta do consumo.

O governo alegará que, à beira do fim de programa de resgate, este não é o momento para causar má impressão aos mercados e à troika. Dirá ainda que não tem margem orçamental para prescindir de receitas e, assim, reduzir a carga fiscal sobre as famílias.

Mas, no final, o que se sabe é que a política é feita de opções e o resto é conversa. Quem gere expectativas já deveria saber que “a melhor parte da nossa vida é passada a aguardar o que aí vem” (William Hazlitt).

“Fiquei dececionada com os 10 anos de Barroso na Comissão”

Maria João Rodrigues - Conselheira para a União Europeia

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens

Maria João Rodrigues ficou conhecida como a mãe da Estratégia de Lisboa e ajudou a construir a Estratégia Europeia 2020. Conselheira na União Europeia, esteve também envolvida no Tratado de Lisboa e no desenho da agenda de Bruxelas para o crescimento e emprego. A nível nacional, foi ministra da Qualificação e do Emprego num governo de António Guterres e é a número dois da lista do PS às eleições europeias de 25 de maio.

A Estratégia de Lisboa, desenhada em 2000, pretendia fazer da Europa “a mais competitiva e dinâmica economia mundial, capaz de crescimento sustentado, com mais e melhores empregos e maior coesão social”. A crise deitou por terra esta pretensão, ou ainda podemos sonhar com uma Europa de crescimento e coesão? Continue reading ““Fiquei dececionada com os 10 anos de Barroso na Comissão””

À sombra dos bancos alimentares

Artigo publicado no Diário de Notícias

Sílvia

Morre cedo a visão romântica de que nos tornamos melhores perante os sacrifícios. Recentemente, foi divulgado um estudo cujas conclusões contrastam com os recordes dos bancos alimentares e apontam para uma realidade bem mais cruel, a do aumento da indiferença perante o sofrimento alheio.

Os portugueses com mais dinheiro e mais habilitações dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos, diz a investigação da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano, que contou com o apoio da União Europeia.

Sobre a importância de ajudar os outros, 86,5% das pessoas com primeiro ciclo responderam afirmativamente; dos licenciados, mestres e doutorados, apenas 53,1%. À mesma pergunta cruzada com os níveis de rendimento, 86,4% das pessoas que ganham até 500 euros consideram muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que aumenta o rendimento, até aos 46,7% para os que ganham mais de quatro mil euros por mês.

O que este estudo faz é, obviamente, colocar em causa o papel da escola e da família na formação do indivíduo, mostrar que mais habilitações não é igual a mais educação. Claro que este problema não nasceu hoje, sempre existiram e sempre existirão pessoas incapazes de vestir a pele dos outros, egoístas, individualistas, competitivas e desconfiadas. Não é, afinal, para isso que somos feitos, para sermos grandes técnicos e os melhores profissionais?!

O problema é que com a crise e este estado de emergência financeira aumentou a tolerância para com a desgraça dos outros. E Passos Coelho, que não é culpado de todos os males do mundo, que não cometeu só erro atrás de erro, não é isento de responsabilidades na cada vez maior condescendência em relação à dor do vizinho. E não se trata de uma culpa (palavra detestável) automática, que lhe é conferida pelo estatuto que ocupa, de chefe de governo, mas sim de uma responsabilidade legitimada por ideias e atos.

A insensibilidade social deste governo, a frieza com que trata cidadãos, a mesma com que faz as contas para atingir um défice muito inferior ao acordado com a troika, quanto mais cedo melhor, transformou os mais pobres em meros danos colaterais. Os que ficam pelo caminho são apenas um faz parte da lengalenga da inexistência de alternativas a esta austeridade. É assim a vida num país onde há cada vez mais doutorados na conveniente atividade de encolher os ombros.