À sombra dos bancos alimentares

Artigo publicado no Diário de Notícias

Sílvia

Morre cedo a visão romântica de que nos tornamos melhores perante os sacrifícios. Recentemente, foi divulgado um estudo cujas conclusões contrastam com os recordes dos bancos alimentares e apontam para uma realidade bem mais cruel, a do aumento da indiferença perante o sofrimento alheio.

Os portugueses com mais dinheiro e mais habilitações dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos, diz a investigação da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano, que contou com o apoio da União Europeia.

Sobre a importância de ajudar os outros, 86,5% das pessoas com primeiro ciclo responderam afirmativamente; dos licenciados, mestres e doutorados, apenas 53,1%. À mesma pergunta cruzada com os níveis de rendimento, 86,4% das pessoas que ganham até 500 euros consideram muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que aumenta o rendimento, até aos 46,7% para os que ganham mais de quatro mil euros por mês.

O que este estudo faz é, obviamente, colocar em causa o papel da escola e da família na formação do indivíduo, mostrar que mais habilitações não é igual a mais educação. Claro que este problema não nasceu hoje, sempre existiram e sempre existirão pessoas incapazes de vestir a pele dos outros, egoístas, individualistas, competitivas e desconfiadas. Não é, afinal, para isso que somos feitos, para sermos grandes técnicos e os melhores profissionais?!

O problema é que com a crise e este estado de emergência financeira aumentou a tolerância para com a desgraça dos outros. E Passos Coelho, que não é culpado de todos os males do mundo, que não cometeu só erro atrás de erro, não é isento de responsabilidades na cada vez maior condescendência em relação à dor do vizinho. E não se trata de uma culpa (palavra detestável) automática, que lhe é conferida pelo estatuto que ocupa, de chefe de governo, mas sim de uma responsabilidade legitimada por ideias e atos.

A insensibilidade social deste governo, a frieza com que trata cidadãos, a mesma com que faz as contas para atingir um défice muito inferior ao acordado com a troika, quanto mais cedo melhor, transformou os mais pobres em meros danos colaterais. Os que ficam pelo caminho são apenas um faz parte da lengalenga da inexistência de alternativas a esta austeridade. É assim a vida num país onde há cada vez mais doutorados na conveniente atividade de encolher os ombros.

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