Incentivo zero para trabalhar melhor

Opinião

Artigo publicado no Diário de Notícias

Os portugueses são um povo compreensivo, têm compreendido muita coisa, mais que não seja porque não têm outro remédio. Nos últimos três anos, levaram com a maior vaga de austeridade de que há memória, empobreceram, fizeram sacrifícios e corrigiram estilos de vida.

Mas não foi suficiente porque, apesar de tudo, os portugueses continuam a viver acima das possibilidades do país. Continuam a gastar mais do que o país produz. Ao fim destes três anos e depois de 11 avaliações ao Programa de Assistência Financeira, é isto que o FMI, uma das entidades que integra a troika, tem para dizer, que em Portugal continua a existir uma elevada rigidez no mercado laboral e que os empregadores devem ter mais liberdade para baixar salários e despedir individualmente. Se isso não acontecer, diz o FMI, comprometer-se-á a recuperação do emprego, ou seja, o desemprego poderá voltar a aumentar.

É compreensível. Sim, os portugueses entendem que a recuperação do emprego depende da saúde das empresas e que nesta interfere, não só, mas muito, o peso da fatura dos custos com o trabalho. Os portugueses até percebem que a competitividade das empresas será tanto maior quanto menor forem os salários dos seus trabalhadores. Não é assim na China?! E até conseguem entender, mais que não seja por falta de alternativa, que seja mais fácil os empresários cortarem nos salários do que noutro tipo de custos. A conta da eletricidade, por exemplo, outra enorme parcela dos custos das empresas, escapa ao controlo dos empresários.

Mas neste caso, os empresários e o Governo, que gere o país – o conjunto de todas as empresas -, terão de compreender que, assim, o estímulo dos portugueses para trabalhar mais e melhor é cada vez menor. Num país onde a expectativa é, na melhor das hipóteses, a de um congelamento dos salários, compromete-se a produtividade, condena-se a economia a um triste ramerrame.

Está nos livros de economia que a remuneração é o principal incentivo para se trabalhar mais e melhor. E também está nos livros de economia que cortar salários é o grau zero da gestão. Por mais grave que seja a crise, quando a única solução é cortar salários é porque a gestão foi má, muito má. É importante que, no meio da urgência por que passa o país, jamais se desculpabilize a decisão de cortar salários. A compreensão dos portugueses também tem limites.

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