João Ermida: “Vivemos num SimCity falseado porque as pessoas não podem fugir”

João Ermida

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Rita Costa (TSF)
Fotografia de Natacha Cardoso/Global Imagens

Fez carreira na banca, passou pelo Citybank e pelo Santander, onde chegou a ser tesoureiro de todo o grupo, mas um dia, em 2003, entrou numa igreja em Madrid e 24 horas depois demitiu-se. Facilitou a vida ao seu chefe, que lhe pedia que cortasse mais cinco pessoas na sua equipa. Passou a dedicar-se a projetos de natureza social e a denunciar a ganância e a falta de valores que impera no sector financeiro. Hoje é responsável pelo aconselhamento de investimentos financeiros a famílias na Golden Assets. Lançou agora o seu terceiro livro, um romance intitulado “O Dono do Mundo”.

A personagem principal deste livro trabalha em Lisboa, num banco de investimento norte-americano, na altura da queda do muro de Berlim. O romance descreve um ambiente de alta finança, de ganância, de guerras de poder , mentira, ausências de valores, uma vida onde o dinheiro está acima de tudo. É assim na vida real dos bancos?

Quando se está a escrever um romance tem que se ter uma inspiração real. O romance é inspirado numa série de atores que continuam nesse mundo. A partir de 2008, com a crise, essas pessoas estavam a mudar comportamentos, tinham uma atitude comportamental diferente. Se calhar, nos primeiros meses, entre setembro de 2008 e julho de 2009, as pessoas pensaram “bom, tenho que mudar muita coisa, temos que alterar o nosso modo de vida porque isto não está igual”, mas a partir do momento em que os mercados começaram a subir, em março de 2009, voltou-se ao status quo, voltou-se ao mesmo. O romance inspira-se nas pessoas que hoje estão a tentar não mudar nada no mundo financeiro.

O cidadão comum não está totalmente errado quando pensa que são os banqueiros os principais responsáveis pelas crises?
Não digo que são os banqueiros. Há uma atitude comportamental no mundo financeiro que não ajuda. Não digo que as pessoas que estão a gerir os bancos pensem todas da mesma forma, mas existe, claramente, um grupo na banca de investimento que verdadeiramente continua a não querer mudar, a não querer transformar o seu comportamento.

Mudar o quê?
Hoje, as regras do jogo estão totalmente transformadas e viciadas. Há um grupo que pensa “eu quero é ser rico muito rapidamente, não me interessa se isto vai ser à custa de muita gente, se de pouca gente. A minha ótica é trabalhar 10 anos e sair daqui milionário, é-me indiferente o que me venha contar”.

Exista ou não crise?
Exista ou não crise. É-lhes indiferente. Não é normal a série de suicídios, dos últimos meses, na City em Londres, de altos responsáveis, de pessoas que estavam a liderar processos em bancos e que, de repente, atiram-se de uma janela abaixo. O ex-CEO do ABN suicidou-se e antes matou a família. A pessoa olha para essas situações e pensa que alguma coisa não está bem. Há uma atitude comportamental que não está bem nesse mundo.

Há um ano soubemos que Horta Osório, que foi presidente do Santander em Portugal no tempo em que João Ermida trabalhava neste grupo, e que, atualmente, é presidente executivo do Lloyds, teve que se afastar durante dois meses devido ao excesso de stress. Estas situações parecem ser cada vez mais comuns. O que é que há neste mundo que faz com que as pessoas não aguentem?
É muito difícil. Hoje, a pressão que é posta nos altos executivos é tão grande para mostrar resultados num curto espaço de tempo, que as pessoas, mesmo que tenham grandes valores, grandes princípios, grandes atitudes, de repente, veem-se limitadas na sua atuação.

A pressão de que fala existe a um nível mais baixo, não ao nível dos CEO, como Horta Osório?
Existe ao nível de toda a gente. Vai de cima a baixo na hierarquia, mas, naturalmente, é maior em cima.

A crise do subprime não mudou grande coisa?
A crise do subprime está ser liderada por banqueiros centrais, por pessoas tão comuns como você e eu, não está a ser liderada por extraterrestres, ou por pessoas que tenham bolas mágicas ou varinhas de condão. São pessoas que têm limitações de conhecimento de como é que se sai de uma crise como esta, como nós temos, mas têm a responsabilidade de liderar esse processo. O que os banqueiros centrais estão a fazer – imprimir moeda, comprar mais dívida pública, aumentar os balanços – é entrar em território completamente novo e isso está a gerar, acima de tudo, que as pessoas que tinham dinheiro antes da crise passaram a ter mais, e as pessoas que tinham menos dinheiro antes da crise passaram a ter menos, ou estão hoje a viver pior. A solução passa pelo crescimento económico, que gere novo emprego, e nunca se viu tantas empresas a deixar de lado dinheiro para investir mais tarde. Ou seja, até agora todas estas medidas não estão a passar.

São remédios não testados?
Baixar as taxas de juro -levámo-las para zero -, dar dinheiro aos mercados financeiros para especularem em ações não significa, naturalmente, que isso vá criar empregos. Pode vir a criar dentro de dois ou três anos, mas também pode criar uma bolha tão grande que essa riqueza, criada de um momento para o outro, pode esfumar-se. Até agora, não está provado que as economias estejam a conseguir crescer o necessário. Ou seja, o mundo tornou-se muito mais complexo depois desta crise.

A União Bancária é um passo importante?
Tudo o que contribua para saber, de forma clara, como é que se vão gerir os bancos e qual será o futuro na supervisão é positivo. No meu primeiro livro, em 2008, já alertava para esse problema. Existem as CMVM portuguesas, as CMVM espanholas, o Banco de Portugal, o Banco de Espanha… Se esta é uma zona de uma só moeda, tem de haver alguém que supervisione tudo isto. Infelizmente foi preciso vir a crise de 2008 para as pessoas acordarem e fazerem alguma coisa, portanto, positivo será sempre.

Em Portugal, os principais bancos acumulam prejuízos recorde: mais de dois mil milhões de euros, em 2013. Os reguladores conseguem monitorizar todas as fontes de risco dos bancos?
Não, é impossível, não existe forma de o fazer. O que existe são duas coisas: os próprios bancos têm fontes internas de controle dos seus próprios riscos, e naturalmente, atuam de forma preventiva; e o regulador, que segue de forma atenta o que é a evolução dos créditos e a evolução dos grandes riscos de todos os bancos.

Os bancos continuam tão expostos aos riscos como antes da crise?
Os bancos portugueses, felizmente, não entraram na compra desse tipo de ativos. No entanto, se observar qual foi o crescimento pós crise dos ativos em Portugal e em Espanha, vê que não precisavam de ter comprado esses ativos a bancos americanos porque já estavam a conceder grandes empréstimos à construção, ao imobiliário. Digamos que tinham o seu subprime interno, não precisavam de ir comprar a terceiros. Hoje, o grande problema é como crescer. A banca comercial tem que continuar a emprestar, porque o crédito é o negócio dos bancos, não é receber depósitos.

Então os clientes dos bancos portugueses não têm razão para estar apreensivos, porque os bancos estão mais saudáveis do que antes da crise?
Eu, pelo menos em relação às famílias que aconselho, não me ponho hoje a pensar se vou tirar dinheiro de um banco, ou pôr noutro. Escolho, naturalmente, o tipo de riscos e prefiro muito mais ter obrigações, ter outros ativos que não sejam somente depósitos junto de um banco.

Mas escolhe o banco em função da rentabilidade do ativo e não em função da segurança do banco?
Depende muito, mas busco, claramente, a melhor rentabilidade para os nossos clientes.

O sistema bancário português é confiável?
O sistema financeiro europeu, tal como o sistema financeiro português, neste momento, são perfeitamente confiáveis.

Qual o banqueiro que mais admira?
Como banqueiro, claramente, Emilio Botín.

Porquê?
Pelas conversas particulares que tive com ele, a visão, a forma como respeita os seus princípios, aquilo em que acredita. Todos os princípios em que acredita leva-os, não os deixa cair.

Na sua opinião, Emílio Botín tem mais valores do que a generalidade dos banqueiros?
Não digo isso, falo sobre a visão e forma de estar, quando acredita numa coisa, faz e vai até ao fim. Isso é importantíssimo quando está a falar de um banqueiro. Nunca me hei de esquecer de coisas tão simples que ele dizia, com uma certa piada, como “tudo se pode mudar neste banco [Santander], mas não se pode mudar a política de riscos de crédito, a forma como nós concedemos o crédito não a vamos mudar”. Eram coisas que ele nos transmitia.

E qual era essa política de risco de crédito?
Era apertada. Era uma questão de ter a noção de que o que se faz na banca é prestar um serviço. Um banco empresta o dinheiro que eu lá depositei, não está a emprestar dinheiro que é seu. Ao prestar esse serviço tem que se ter a noção de que é necessária uma boa política de riscos de crédito. Se não a tiver, mais tarde ou mais cedo, isso vem contra si.

Li algures que João Ermida é um banqueiro arrependido. Revê-se nessa descrição?
Não, acho que “banqueiro arrependido” nunca se pode dizer. Não me revejo no mundo financeiro de hoje. Desde que saí, em 2003, o que faço hoje é tão simples e diferente. Claramente, não me revejo nesse mundo financeiro, nesse mundo bancário.

Porquê?
É uma atitude comportamental, ou seja, não conseguiria viver com a atitude comportamental que é requerida hoje para se ganhar dinheiro na banca. É uma atitude comportamental na qual eu não me revejo. O dinheiro é uma consequência de muitas coisas e aquilo em que não me revejo é ter de voltar a fazer coisas em que não acredito.

Mas, um dia, gostaria de criar um banco?
Pensei muitas vezes na questão dos bancos éticos, mas acho que Portugal ainda não tem dimensão para uma coisa desse tipo. Se um dia viesse a ter, sim, seria um projeto interessante.

E o que falta nos bancos são valores?
Na minha opinião, essencialmente, o problema do mundo é um problema de valores. Ou seja, há uma perda do referencial de valores, sobre o que é importante e o que não é importante e sobre quais são os princípios que devemos seguir. Falo com muitas pessoas que têm pensamentos como eu e acho que todos andamos ansiosos para que alguma coisa aconteça, para as pessoas caírem em si. E todos andamos frustrados porque olhamos e percebemos que é um problema de valores.

Atualmente, faz aconselhamento financeiro a famílias. Faz isso por prazer, por vocação ou para ganhar dinheiro?
Faço pelas três. Faço, naturalmente, por prazer. Acho que tenho alguma vocação para isso, pois tenho a capacidade de discernir bem o que é rentável do que não é rentável, o que é interessante do que não é interessante. Acho que aprendi, desde o começo, a entender essa questão. Sou muito crítico em relação aos mercados, porque sou cético.

Preservou esse instinto para fazer dinheiro?
Sim ainda o guardo, apesar de, com o passar dos anos, já não ter tanta vontade de tomar riscos como já tive quando tinha 30 e poucos anos. Era completamente diferente. No fim, como é óbvio, acho que todas as pessoas têm de ganhar dinheiro.

Que conselho dá a quem queira investir na atual conjuntura?
Cautela.

E com cautela é possível ganhar dinheiro?
Com cautela consegue-se ganhar dinheiro, mas cautela acima de tudo. O mais importante – essa é a discussão que tenho com as nossas famílias – é que onde uma pessoa vai ganhar dinheiro é sempre naquilo que faz, na sua atividade. Nunca os mercados financeiros podem substituir a profissão, ou podem ser um sustento. No fundo, todas as nossas famílias têm um denominador comum: as pessoas com quem trabalhamos são pessoas que têm empresas rentáveis, onde ganham o seu dinheiro e às quais dedicam 24 horas por dia, todas têm o seu trabalho. E depois, delegam-nos a responsabilidade de não lhes perdermos o património e de as fazermos ganhar algum.

As taxas de juro da dívida portuguesa desceram bastante nos últimos meses, situando-se agora à volta dos 4%. A dívida portuguesa é um bom investimento?
Hoje, aos níveis em que estão – 3,75% -, penso que as Obrigações do Tesouro a 10 anos continuam a ser um ativo interessante mas não são um bom investimento. Bom investimento foi quando elas estavas a 12%, ou a 14%.

Continua a investir a título pessoal?
A título pessoal, sou muito muito indisciplinado. Sou cauteloso, mas indisciplinado, porque não entro em conflito de interesses. Mantenho tudo o que tenho em depósitos.

Quais os possíveis conflitos de interesse no seu caso?
Nunca gostei de conflitos de interesses. Já quando trabalhava no Santander, tinha uma mínima parte do meu património em risco. Fazia aplicações a 15 dias. Imagine que gosta muito de uma ação que nós recomendámos aos nossos clientes quando estava a oito cêntimos – BCP – e que hoje está a 21 cêntimos. Foi uma excelente compra. Mas se eu a tivesse comprado, teria de a recomendar de uma forma diferente, psicologicamente era diferente. Eu iria estar a dizer “eu comprei, veja que isto também vai ser bom” e as pessoas começariam a pensar “se ele comprou então também está a querer que eu compre”. Acho que isso não pode acontecer.

Então está permanentemente a deixar de ganhar dinheiro?
Nesse aspeto, sim, estou permanentemente a deixar de ganhar dinheiro.

Vive bem com isso?
Vivo. É uma questão da pessoa ter uma missão na vida. Ganhar dinheiro a aconselhar, ou ganhar dinheiro a fazer com que os outros comprem aquilo que você já comprou é diferente.

Escreveu no seu blog “a negociação com a troika está enfermada por uma falta de respeito pelo Portugal mais desfavorecido. Os mais desfavorecidos não mereciam uma governação tão fraca”. Porque é que considera a governação fraca?
Essa frase já tem um ano. E agora estou a começar a ficar mais nervoso, porque começo a ver o governo a dizer que em 2015 baixará os impostos, que em 2015 fará isto e aquilo. E eu olho e vejo que 2015 é ano de eleições. No outro dia, estava a explicar ao meu filho o jogo do SimCity, aquele jogo em que se subirmos os impostos, a população desaparece. Se pensar num jogo de SimCity em Portugal, tem uma coisa interessante: a população mais atacada é aquela que não pode fugir. Portanto, Portugal tem sido um jogo de SimCity que está falseado, porque a população não pode fugir. Aquela população que foi mais atacada é aquela que não pode mesmo fugir, não vota, porque já não se desloca para votar, não se desloca porque está em casa e recebe uma pensão, são pessoas que não têm como sair. Isso, na minha opinião, não foi a melhor forma de governação. Como é óbvio, podem dizer-me, e com toda a razão, que, se calhar, isto é consequência do memorando de entendimento feito com a troika e que não foi possível fazer melhor naquelas circunstâncias. Agora, acho que os dois partidos que levaram o país a esta situação deveriam ter outra atitude. Isto não é uma questão do PS, nem do PSD. É-me indiferente, porque não me quero filiar no PSD, nem no PS. Há muitos anos fiz algumas campanhas eleitorais pelo PSD, mas isso foi há 20 anos. Depois desacreditei da política, portanto, tenho uma atitude em que não vou, nem quero, militar, nem quero ser contratado por ninguém.

O que é que o levou a desacreditar na política?
Quando conhece aquele mundo percebe que é um mundo onde não tem que estar porque não vale a pena. As pessoas, infelizmente, hoje utilizam o estar na política para conseguir um emprego, para conseguir uma posição, para subir na vida. Para mim, subir na vida tem de ser por mérito, não é porque andei a colar cartazes, nem porque angariei votos. Acho que isso não pode existir, tem de ser por mérito. Não é por favores que as coisas são conseguidas e, infelizmente, esse foi o sentido para o qual a política foi. As populações mais desfavorecidas, não foram protegidas. Sinto isto quando faço trabalho social num lar. Todas as semanas vejo as pessoas a pedirem-nos que façamos reduções naquilo que pagam. E pedem-nos isso porque a fatura da farmácia é mais cara e as pessoas ficam sem dinheiro no final do mês. E começa-se a ver um outro fenómeno, que é o dos filhos que não conseguem pagar os lares para os pais. Esse é um problema social e estamos a aumentá-lo. E o ministro da Segurança Social sabe disso perfeitamente.

Estamos prestes a chegar ao fim do programa de assistência financeira. Há quem defenda que este resgate foi sobretudo um resgate aos bancos, foi uma forma de os livrar da dívida pública. Concorda?
Não, acho que este resgate foi uma consequência do facto de os dois principais partidos – PS e PSD – não se terem posto de acordo sobre quais deveriam ter sido as medidas a apoiar para evitar o resgate. Havia duas hipóteses, depois daquilo que aconteceu na Grécia e a seguir na Irlanda. Há um velho ditado que diz “não há duas sem três” e digamos que havia a hipótese de haver um terceiro país a ser resgatado. Podia ser a Espanha, podia ser a Itália, ou podíamos ser nós. Pela dimensão, o mais lógico é que tivesse sido um país como a Espanha, ou a Itália a sofrerem uma situação desse tipo, mas, no fim, fomos nós. E fomos nós porque, naquele momento, os dois principais partidos não se puseram de acordo sobre o que tinha de ser a governação. Nós éramos um patinho feio, éramos um elo mais fraco no meio disto tudo, e tínhamos que apresentar uma série de medidas em que os dois partidos se sentissem claramente à vontade para cumprir num programa.

Não podia ser um PEC4?
Não. E os dois partidos brincaram naquele momento, brincaram com o povo, pura e simplesmente, porque andavam a criticar-se mutuamente. Veja o programa eleitoral de Pedro Passos Coelho. É pegar em tudo o que ele prometeu e tudo o que não pode fazer.

É bastante critico do governo e da política em geral.
Sou bastante crítico dos governos. É-me indiferente se é o nosso, ou se são aqueles que estão em Espanha. Acho que a classe política é um problema mundial, não é um problema de Portugal. Infelizmente, é um problema mundial. A classe política baixou a guarda, ou seja, os líderes que nos podem inspirar e levar-nos a melhorar desapareceram. Hoje, somos governados, em termos mundiais, por pessoas nas quais não me revejo.

Conhecemos esta semana o DEO, o documento de estratégia orçamental, que define o caminho das contas públicas até 2018, Acredita que este GPS da política orçamental vai ser mesmo seguido, ou estamos a falar de medidas para mostrar à troika?
Não sei, mas quando começo a ver os governos a falar no que é que podemos fazer em 2015, ano de eleições, e já começam a haver anúncios de se poderá afrouxar algumas das medidas. Acho que estes documentos de estratégia orçamental podem ser muito bons para serem apresentados mas vejo-os com muita dificuldade de execução.

Voltando à sua experiência pessoal, tomava calmantes diariamente, viveu anos com ataques de pânico. Chegou a gastar 600 euros numa viagem de táxi por causa do pânico de conduzir. Foi assim?
Sim.

E um dia entrou numa igreja, em Madrid, e dois dias depois demitiu-se.
Aquela viagem de táxi aconteceu já depois de me ter demitido, em 2005.

O facto de ter ganho tanto dinheiro enquanto trabalhava na banca e, por isso, viver sem problemas financeiros, permitiu-lhe largar a vida que se tinha tornado para si um martírio. Mas nem toda a gente tem a liberdade para fazer isso, para um dia poder chegar ao seu emprego e dizer “vou-me embora”. Que conselhos pode dar a quem não tem essa liberdade e tem de se sujeitar todos os dias ao seu próprio martírio?
Não concordo minimamente com isso. Acho que todos nós temos de estar na vida a procurar acima de tudo – é a forma de como eu gosto de viver – ser felizes, ou seja, procurar a felicidade, procurar uma razão para acordar todos os dias. Não acredito em pessoas que vão trabalhar para martírios.

Porque têm de ganhar dinheiro para se sustentarem. Essa não será a realidade da maior parte das pessoas?
Não. Se a única razão é a sua subsistência, ela pode ser encontrada sob várias formas, em várias profissões, e portanto, a pessoa tem de trabalhar em várias coisas para ir encontrando onde é que se sente feliz . O conselho é esse, é uma coisa tão simples. Quando os meus filho vieram falar comigo sobre o que queriam fazer, nunca lhes disse “segue por aqui, ou por ali”. Nunca lhes disse e podia ter-lhes dito “se fores para a banca de investimento, apesar de eu achar que eles são todos maus, é lá que vais ganhar muito dinheiro”. Eles é que me vieram dizer aquilo que sentiam de coração que queriam fazer. E acredito que é isso que leva as pessoa a conseguirem ser melhores. Todos os trabalhos vão ter problemas e temos de encontrar aquele que dá vontade, aquele em que se tem a inspiração para fazer as coisas. E a consequência disso, naturalmente, é as pessoas ganharem dinheiro.

O que é que as pessoas fazem às contas que têm para pagar? Não as podem deixar de pagar…
Mas porque é deixariam de pagar?! Imagina este caso. Sempre pensou que gostaria de ser professora, mas de repente é jornalista. Não vai ser professora porque o jornalismo é o que lhe paga melhor?! Pode ser professora em Portugal, como pode ser professora em Espanha, no Brasil, ou na Austrália. A escolha é sua. Não há almoços grátis. Quando quis ganhar mais dinheiro, não podia ficar em Portugal, tive de ir para fora e, nessas condições, não pude levar a minha família, tive de ir sozinho. Não existem essas coisas dos almoços grátis.

Teve de chegar a um limite para perceber o que é que é essencial na vida?
Para percebermos o que é essencial na vida temos de chegar a limites na nossa forma de ver as coisas. Muitas vezes é necessário chegar a esses limites. E atingindo esses limites, o que é que faço? Volto para trás? Continuo na mesma senda, ou não? Há pessoas que são incapazes de voltar para trás, dizem que o dinheiro é o mais importante, que isso é aquilo que querem fazer da vida. E há outras que param, que dizem que o dinheiro não é assim tão importante nas suas vidas. E estamos a falar de alguns milhões [de euros] por ano, não estamos a falar de pouco dinheiro. É uma questão de dizer que nos últimos 10 anos deixou de ganhar não sei quantos milhões. É verdade.

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