“Se as circunstâncias se mantiverem fará sentido manter a coligação nas legislativas”

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Fotografia de Vítor Rios/Global Imagens
Entrevista feita com Hugo Neutel/TSF

Entrevista com Nuno Melo eurodeputado do CDS PP

É advogado e eurodeputado, desde 2009. Nuno Melo é um dos rostos mais conhecidos do CDS-PP, sempre próximo da liderança de Paulo Portas. Nasceu em Vila Nova de Famalicão, há 48 anos, e é o número quatro da lista Aliança Portugal, que reúne os candidatos dos partidos do governo – PSD e CDS-PP – às eleições europeias do próximo dia 25.

O luxemburguês Jean Claude Juncker é o candidato do Partido Popular Europeu, a sua família política, a suceder a Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia. Porque é que é preferível para Portugal ter Juncker e não Martin Schulz na Comissão Europeia?
As razões são muitas e óbvias, a começar pela proximidade de Juncker a Portugal e pelo que Schulz significará no plano institucional da União Europeia. Durante alguns anos, os socialistas invetivaram contra o chamado eixo franco-alemão e condenaram o predomínio alemão no processo decisório europeu. Neste momento, Martin Schulz representa um alemão e um político que integra o governo alemão, o que significaria associar o peso institucional de um alemão à presidência da Comissão Europeia. Com uma agravante, até do ponto de vista político. António José Seguro tem avançado como a mutualização da dívida, como solução milagrosa para os problemas do país. Mas, não só António José Seguro já a tinha rejeitado, como recentemente, em debate com Jean Claude Juncker, Martin Schultz veio dizer que recusaria os eurobonds. Nestas eleições europeias, teremos o paradoxo de António José Seguro, por um lado, defender a mutualização da dívida mas, por outro lado, patrocinar com o seu apoio um candidato à presidência da Comissão Europeia que rejeita a única solução que ele vê para Portugal. Pelo contrário, Jean Claude Juncker foi chefe de governo durante anos no Luxemburgo, um país pequeno, mais próximo de Portugal, com uma enorme comunidade portuguesa (cerca de 25% da população é portuguesa), é amigo de Portugal e fez várias declarações a favor de Portugal. Até por isso, estou convencido de que os socialistas o preferirão.

Os debates não mostram grandes diferenças entre os dois candidatos.
Mostram imensas diferenças, até do ponto de vista da responsabilidade na gestão dos recursos públicos, da criação de emprego e captação de investimento, que não passa por despesa pública, numa marca muito nítida em relação a Martin Schultz. Por outro lado, Juncker surge com uma muito maior compreensão no discurso político relativamente às circunstâncias dos países intervencionados do que o alemão Martin Schultz. O que se compreende, por força das suas próprias circunstâncias. Martin Schultz representa um dos partidos do governo alemão. Sabemos que no nosso contraponto da dicotomia austeridade versus menos austeridade, está esse governo alemão, logo, está também Martin Schultz.

Atribuir essa importância toda ao presidente da Comissão Europeia não é apenas uma das ilusões que se está a tentar criar ao longo desta campanha eleitoral? A Comissão Europeia tem perdido poder e prestígio e está longe de ser um governo supranacional. Ganhe quem ganhar não serão os governos dos países mais poderosos, nomeadamente o alemão, a continuar a decidir o futuro dos países do sul?

Em primeiro lugar, quem começou por insistir muito nesta eleição, que não é verdadeiramente do próximo presidente da Comissão Europeia, foram os socialistas. Ainda o Partido Popular Europeu não tinha anunciado o seu candidato.

A questão não é quem começou, mas sim se não é uma ilusão?
É relevante se tivermos em conta que vamos ter eleições europeias. Antes mesmo do Partido Popular Europeu anunciar o seu putativo candidato, já os socialistas estavam na rua a fazer campanha por Martin Schultz. E não é verdade que a Comissão tenha perdido poderes. É verdade sim, que houve na arquitetura institucional da União Europeia um reforço da intergovernamentabilidade, com poderes acrescidos para o Concelho Europeu, o que não invalida que, em algumas matérias, designadamente de natureza económica e financeira, não tenham sido reforçados também os poderes da própria Comissão Europeia. O que lhe digo é que desejaria que pudéssemos continuar a ter um português, independentemente do partido na presidência da Comissão Europeia. E, infelizmente, não vamos ter.

Mesmo se fosse um português da família socialista?
Evidentemente, sem nenhuma dúvida. Se em causa estivesse a eleição de um socialista português para a presidência da Comissão Europeia, apoiaria. Um português, representando 10 milhões num universo de 500 milhões, resultará a crédito do nosso país. E o que menos me importa seria certamente o partido. De resto, Durão Barroso não é propriamente do CDS.

Voltando à questão de quem decide o futuro dos países do sul. Não é a Comissão Europeia, mas sim os governos dos países do norte?
Sim e não. Se tivermos em conta que no programa de ajustamento tivemos a troika e como componentes da troika, a Comissão Europeia e o BCE, a par do FMI, e não o Concelho Europeu… A intergovernabilização sente-se precisamente no Concelho, onde estão representados os governos dos diferentes Estados. Obviamente, que os Estados acabam por ter, no plano de uma União a 28, uma posição relativamente às respostas a países em dificuldades, o que não invalida que, institucionalmente, essa representação seja de outros, da Comissão Europeia e do BCE. Gostaria que não tivéssemos necessidade de respostas futuras, em tempos próximos, mas preferiria que, nessas respostas, a Europa se bastasse, por exemplo, com a Comissão Europeia e o BCE, sem ter que recorrer ao FMI, que me pareceu, talvez, o mais implacável dos credores.

Não foi assim com a definição da saída do programa de ajustamento português? O Governo não criou um debate ilusório sobre o programa cautelar versus saída limpa. Nem a Alemanha, nem os seus aliados estavam interessados num programa cautelar para Portugal.
Acho extraordinário que agora se afirmem certezas absolutas quando até há dois anos se especulava sobre quase tudo. Um exemplo são as declarações muito pouco conciliatórias, entre si, do secretário-geral do Partido Socialista, António José Seguro. Em junho de 2013, reclamava eleições antecipadas, dizendo que os partidos da coligação do governo estavam a negociar um novo resgate nas costas do portugueses. Em janeiro de 2014, lá foi dizendo que o Partido Socialista não tinha dúvidas, que só uma saída limpa à irlandesa serviria. Mas em fevereiro de 2014, acabou por dizer que, se tivéssemos uma saída limpa, a Europa não estaria a ser solidária com Portugal. E agora, que tivemos uma saída limpa, assenta baterias numa suposta carta para querer significar um programa cautelar que não existe. Ora, o que tivemos foi verdadeiramente notável. Em 2011, estava no Parlamento Europeu, assisti a muitos debates em comissões especializadas e debates plenários, onde Portugal era evocado, a par da Grécia, pelos piores motivos, como um país do sul da Europa, que tinha gasto o que não podia, relapso incumpridor, e que, por ventura, nunca pagaria a sua dívida. Foi assim em 2011. Hoje, Portugal é invocado como um país que cumpriu de forma notável, recuperando credibilidade e reafirmando confiança na nossa economia e na nossa capacidade de criação de emprego. O que me choca, é perceber que, hoje, alguém que quer ser primeiro-ministro, que representa o maior partido da oposição, um importantíssimo partido do arco da governabilidade, se esforce por apoucar Portugal perante os mercados e o mundo. Isso é que me custa.

A questão era saber se a decisão pela saída limpa foi tomada pelo governo português, ou se foi um imposição da Alemanha, da Finlândia, de países não querem levar aos seus próprios parlamentos a aprovação de programas cautelares para países intervencionados.
Evidentemente que a decisão foi tomada por nós, na base da avaliação das nossas atuais circunstâncias, que justificaram credibilidade perante os mercados, perante os credores e perante os países que constituem a União Europeia. Disso não tenho nenhuma dúvida. E não deixaria de causar alguma perplexidade que Portugal optasse por menos do que a Irlanda , porque, nessa avaliação pensariam que alguma coisa correu mal em Portugal. Assim, a partir do próximo dia 17 ou 19, como quiser, partiremos exatamente da mesma posição que a Irlanda. E a verdade é que, no que à Irlanda toca, tudo tem sido melhor desde que a troika voltou a casa.

Dia 25, 400 milhões de eleitores vão escolher os deputados que os representarão no Parlamento Europeu, durante os próximos cinco anos. É o número quatro da lista PSD/CDS-PP e portanto a sua eleição está assegurada. Mas os portugueses estão muito zangados com a Europa. O que é que irá acontecer nesta eleições: os portugueses farão sentir novamente o seu afastamento da política, facto mais sentido nas eleições europeias do que nas nacionais; ou os portugueses poderão aproveitar este ato eleitoral para punir os partidos que impuseram tamanha dose de austeridade nos últimos anos?
A abstenção é um problema recorrente nos últimos anos em eleições, particularmente nas europeias. Todos, desde os partidos aos candidatos, à comunicação social, se devem esforçar por mobilizar as pessoas a votarem, independentemente em quem votarem. Mas em causa não deveria estar a avaliação de qualquer governo. Temos uma oportunidade de discutir questões europeias e, como percebemos nestes últimos três anos, as questões europeias são verdadeiramente fundamentais. O que de mais relevante afetou Portugal foi decidido na Europa, não foi cá. Em causa deveria estar, portanto, uma oportunidade para um discurso europeu e para as propostas dos diferentes partidos. Agora, não ficarei propriamente defensivo de cada vez que o Partido Socialista quiser invocar a governação como fundamento para, na sua perspetiva, obter um melhor resultado eleitoral nas eleições europeias. Pela simples razão que estas eleições europeias também marcarão a diferença, muito nítida, entre quem arruinou o país durante seis anos e nos trouxe a troika, e quem, representando os partidos desta Aliança Portugal no governo, libertou Portugal dessa troika. Isso, queiram ou não queiram, é rigorosamente assim.

Mas qual é a sua convicção: os portugueses poderão aproveitar para punir os partidos que impuseram tantos sacrifícios?
Discutindo-se Portugal, mesmo na componente do governo, pelas nossas circunstâncias, implica discutir também a Europa. Quando discute a troika, discute a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e logo, institucionalmente, a própria Europa, através da sua presença recente em Portugal, relativamente à qual não tencionarei estar na defensiva. Deve é discutir-se a Europa, desde as respostas institucionais, financeiras, económicas, da regulação financeira do sector bancário, da União Bancária, de tudo aquilo que será determinante num futuro a 28. Também sou político, não sou ingénuo, não tenho dúvida de que a batuta à nossa esquerda estará muito centrada no desempenho do governo que, apesar de tudo, também considero comparativamente muito melhor do que as propostas do Partido Socialista. Espero que essa avaliação seja possível para quem vota. Ao avaliar-se a lista da Aliança Portugal, candidata às eleições europeias, não há lá governantes, nem sequer ex-governantes de um passado recente. Mas se avaliar a lista do PS, encontra como cabeça de lista Francisco Assis, que foi presidente do grupo parlamentar do PS quando o PS estava no Governo com José Sócrates e com o engenheiro Guterres. Tem Silva Pereira, um super ministro, que estava ao lado de José Sócrates quando, há bem pouco tempo, os eurodeputados aqui estiveram a avaliar o impacto das políticas de austeridade em Portugal. Estão Carlos Zorrinho, um governante de Sócrates, Elisa Ferreira e Maria João Rodrigues, governantes de António Guterres. Se tivermos que julgar um governo pelos seus protagonistas, teremos de julgar os protagonistas de governos que estão na lista do Partido Socialista. Nas nossas, certamente, não os encontrarão.

Que balanço faz desta presidência de Durão Barroso? Qual o aspeto negativo e o aspeto mais positivo que destaca destes 10 anos?
Globalmente, o aspeto mais negativo da União Europeia, Comissão incluída, estará na sua representação externa, como se percebe bem, desde o conflito da Ucrânia, onde a Europa não consegue aparecer como um bloco.

A Europa tentou, tem um representante para os negócios estrangeiros.
A Catherine Ashton, como bem vê, não vê… Não aparece a par dos principais protagonistas mundiais, numa solução para a paz, que será determinante para o futuro da própria União Europeia. Por exemplo, a União Europeia ainda não percebeu que, neste conflito, tem de dialogar e negociar com a Ucrânia, mas deverá negociar e dialogar com a Rússia, por razões geoestratégicas óbvias. Portanto, a componente de política externa tem falhado, também porque a União Europeias é feita de Estados, cujos interesses estratégicos não são sempre conciliatórios entre si. Tivemos uma enorme vantagem em ter Durão Barroso como português à frente da Comissão Europeia, porque Portugal representa 10 milhões de pessoas num universo de 500 milhões. Não tenho nenhuma dúvida que, em dossiers fundamentais, na articulação entre o presidente da Comissão Europeia e os diferentes governos de Portugal, houve uma majoração daquilo que são os benefícios da União Europeia a favor de Portugal que, em muitos casos, foi prejudicado por decisões internas, designadamente durante os seis anos de governo do engenheiro José Sócrates. Veria essa componente nacional como o fator mais favorável do exercício da presidência da Comissão Europeia.

De que forma é que a solidariedade europeia se poderá manifestar em relação a Portugal, nos próximos anos? Mudará alguma coisa com a próxima liderança da Comissão, no pós-troika?
Além desta arquitetura institucional, que justificaria já a revisão de tratados, desde logo do Tratado de Lisboa, naquilo em que esta tricefalia – Conselho, Comissão e representação externa – tem falhado, a Europa deve centrar o essencial do seu esforço nas políticas de crescimento e de emprego. Vivemos num tempo de crise das dívidas soberanas, que teve como principal impacto recessivo o aumento do desemprego e o crescimento incipiente das economias de certos países. Nesta inversão de ciclo, em que os povos das nações europeias suportaram grande parte do impacto dessa crise, as políticas de crescimento e de emprego são fundamentais.

Mas como é que se concilia uma política para o crescimento e para o emprego, mantendo ao mesmo tempo o rigor nas contas públicas?
Esperando desde logo que a economia cresça. E não é indiferente a economia crescer acima dos 2%, ou abaixo de 2%, portanto, temos que esperar que, podendo afrouxar algum do esforço da austeridade, após a saída da troika, também se criem mecanismos do crescimento da economia, que a par de outras reformas estruturais, algumas já feitas e outras a fazer, motivem o investimento externo, potenciem o crescimento interno, estimulem a criação de emprego, beneficiando também daquilo que no horizonte 2020 significará dinheiro em Portugal disponível em diferentes áreas, desde a investigação ao ensino, às energias renováveis e à agricultura.

A estratégia de Lisboa, que foi desenhada em 2000, pretendia fazer da economia europeia “a mais competitiva e dinâmica economia mundial, capaz de crescimento sustentado com mais e melhores empregos e maior coesão social”. Esta crise deitou por terra esta pretensão, ou será que ainda podemos ambicionar ter uma Europa de crescimento e coesão?
A estratégia só ignorou, porventura, o grau de decisão, muitas vezes errado, das políticas públicas, que assentaram muito do seu desenvolvimento do ponto de vista programático no investimento público, não criador de riqueza, e que endividaram esses Estados, que simplesmente baquearam, levando aos resgates que, entre outros, afetaram Portugal. Daí ser muito importante a União Bancária, porque percebemos que os Estados se endividaram para socorrer bancos, que eram detentores de títulos de dívida que se desvalorizaram. E tivemos aqui um ciclo de pescadinha de rabo na boca, que dificilmente dava expectativa de resolução satisfatória no futuro. Não sou tão otimista em relação aos mecanismos de resolução bancária que acabaram por ser encontrados como muitas das pessoas que sobre elas têm traçado elogios.

Não são suficientemente ambiciosos?
Desde logo, foram incapazes de excluir do processo de resolução os depósitos dos clientes dos bancos, no caso do salvamento de bancos em dificuldade. E por outro lado, também não distinguem os depósitos das pessoas singulares dos depósitos das pessoas coletivas. Não é a mesma coisa falarmos, para efeitos de resgate de um banco com problemas, de um depósito de qualquer um de nós, pessoa singular, ou de depósitos, por exemplo, de uma fundação Champalimaud, ou de uma pequena, média ou grande empresa, cujo capital em depósito, muitas vezes, já não traduz liquidez na empresa, pois é um depósito que servirá para pagar salários, mercadorias, encargos ao Estado. Cativar um destes depósitos para salvar um banco terá um impacto muito maior do que apenas na saúde financeira desta empresa, ou dessa fundação, ou dessa IPSS. Deveriam ter sido distinguidos e, neste caso concreto, estes depósitos deveriam ter sido excluídos, e não foram.

O que é que os portugueses podem esperar de si e da lista que integra às Europeias de diferente em relação ao que vão fazer os eurodeputados eleitos pela lista do Partido Socialista e pelas outras listas?
Há uma justiça que qualquer deputado europeu deve fazer, e fará se estiver de boa fé, é que há uma diferença entre o Parlamento Europeu e o Parlamento nacional. Muitas vezes os deputados europeus dos diferentes partidos decidem-se, primeiro, pelo interesse nacional e só depois pelo interesse partidário. No Parlamento nacional nem sempre é assim. Por exemplo, na reforma da Política Agrícola Comum, o deputado Capoulas Santos, relator de alguns relatórios, apresentou propostas que nós votámos favoravelmente, tal qual o deputado Capoulas Santos e os socialistas portugueses votaram a favor de emendas que eu apresentei em matéria de agricultura no Parlamento Europeu.

É mais fácil ultrapassarem diferenças em nome do país, do que quando concorrem na política nacional?
Porque [no Parlamento Europeu] são muito mais visíveis os interesses estratégicos dos diferentes estados. Na reforma da PAC, quando reclamamos maior coesão, mais solidariedade e maior equidade na atribuição dos fundos, sabemos que Portugal partia do 24º lugar, em 27 países, segundo o critério por hectare. Logo, se alguém apresenta propostas que não queiram alterar esta estratégia, nós votaremos tendencialmente contra e estaremos todos a favor do que é melhor para Portugal. Isto não invalida que subsistam diferenças ideológicas e programáticas relevantes, por exemplo, na aplicação e na extensão do chamado princípio da subsidiariedade, relativamente ao qual os partidos centro-direita, e o PP em particular, são muito mais puristas do que a esquerda, também a socialista.

Portugal está quase a terminar o resgate, mas o Tratado Orçamental Europeu vai obrigar-nos a uma disciplina constante na gestão das contas públicas. Faz sentido admitir que os países do programa possam, não ser isentados desse rigor, mas beneficiar de uma maior tolerância nas metas orçamentais? A OCDE, que não é credor de Portugal, emitiu esta semana um relatório, que coloca maior ênfase nas políticas de crescimento e sugere, inclusive, que o governo português relaxe nas metas do défice.
Nos próximos anos, não poderemos propriamente descurar o rigor orçamental. Isso parece-me mais ou menos evidente. De resto, é a nossa própria credibilidade perante os mercados e perante o mundo que também seria questionada. E só passaram três anos depois desta crise, que foi talvez das mais graves das últimas décadas em Portugal. Defendo um sistema facilitado de acesso aos fundos comunitários, que vise premiar os países que cumprem e que, desse ponto de vista, seja distintivo. Não acho que seja igual, ou que devam ser tratados por igual, países que, como Portugal, cumpriram impecavelmente, com um sacrifício muito significativo, com qualquer outro país que tendeu sempre a ser incumpridor e que, apesar de tudo, continua a beneficiar dessa solidariedade europeia por igual. Devia haver – defendo e defenderei no Parlamento Europeu – um critério diferenciador no acesso aos fundos comunitários.

E uma maior tolerância nas metas orçamentais?
A tolerância nas metas orçamentais não pode colidir com esse esforço de rigor orçamental que, neste caso, já não dependerá da troika, ou de um programa de ajustamento, mas que significará que não voltaremos ao Portugal de antes de 2011. O pior que poderia suceder a Portugal neste momento seria a crença de que, regressando a troika a casa, retornando Portugal de forma limpa aos mercados, pudéssemos, do ponto de vista interno, agir, também do ponto de vista orçamental, tal qual agimos até 2011.

As metas fixadas devem ser mantidas, ou deve haver maior tolerância em relação a países cumpridores, como Portugal?
Depende muito do comportamento da economia. A economia é implacável. Se uma economia cresce, temos uma variável que não dominamos, mas que condiciona tudo o resto. As metas orçamentais devem depender, desde logo, do comportamento da economia. Para já, do ponto de vista macroeconómico, a economia tem tido um comportamento que é largamente positivo, no crescimento, nas exportações, na balança comercial, nas taxas de desemprego, no aumento da produção industrial, na criação de empresas, nos testes aos mercados, que têm sido muito positivos, ou no sucesso de sectores da economia, como é o caso da agricultura.

Recentemente, disse que a opção pelos impostos tem que ter um limite, e defendeu também que a desvalorização dos salários também tem que ter um fim. Há dias Passos Coelhos anunciou, não só o aumento da Taxa Social Única dos trabalhadores , ou seja, os descontos que fazem para a Segurança Social, como agravou um imposto, o IVA. Saíram ainda notícias sobre a criação do chamado “imposto das batatas fritas”, apenas desmentido pelos ministros do CDS-PP. As tradicionais bandeiras do seu partido têm sido todas sacrificadas nestes três anos de governação.
Não é verdade. A saída limpa para os mercados tem um aumento da chamada responsabilidade social, o que significa que, nos próximos tempos, deveremos assegurar a retoma do poder de compra dos funcionários públicos, tal qual devemos aligeirar o esforço feito, notavelmente, pelos pensionistas.

Isso deve ser feito através do aumento de impostos, ou do corte na despesa?
Em relação ao aumento de impostos, foi criada uma comissão da reforma do IRS, tal como tinha sido criada uma comissão de reforma do IRC. A comissão de reforma do IRC significou um aligeiramento do esforço contributivo das empresas. Em relação à reforma do IRS, não podendo antecipar as conclusões desta comissão, parece-me que justificará que se valorize a posição do trabalho e que se valorize, entre outras coisas, a posição da família. Durante muitos anos, fomos falando do chamado coeficiente familiar. Esse é um dos exemplos em que defendo que o Estado deverá diminuir os encargos pagos pelos contribuintes.

Paulo Portas chegou a falar de uma redução do IRS nesta legislatura.
Sim, e porventura terá.

Como?
Não sei, veremos. Há, neste momento, uma comissão que trabalha. Veremos o resultado do trabalho dessa comissão, o que não invalidará um esforço conciliatório dos socialistas, semelhante ao que deram em relação ao IRC.

Acha possível a redução do IRS nesta legislatura?
Eu desejaria. Se é possível ou não, não sei, não sou membro do governo, muito menos com a tutela da pasta. Há uma enorme diferença entre governar com troika, ou governar sem troika, governar de forma condicionada por um programa de ajustamento que, em larga medida, é vinculante, ou governar com um arbítrio, que será possível a partir da saída da troika. A CES é uma contribuição extraordinária de solidariedade.

Não falei da CES, falei da TSU.
Mas uma coisa implica necessariamente a outra no financiamento do sistema, porque a Contribuição Extraordinária de Solidariedade foi alterada, aligeirando, e muito, esse esforço contributivo. As pensões acima de mil euros pagavam taxas entre 3,5 e 10%, e as mais elevadas sobretaxas até 40%. Isto foi largamente diminuído. Até mil euros, nenhum pensionista pagará. Estão excluídos 86% dos pensionistas. A partir do momento em que reduz o bolo geral, tudo conjugado, o pagamento diminui. É chocante que António José Seguro não tenha percebido. É importante perceber a vocação social específica relacionada com as reformas deste aumento da TSU, que é incipiente. Em causa está, não só a sustentabilidade do sistema, que hoje ajuda pessoas que estão na reforma, mas também pensar, para o futuro, aquilo que se há-de fazer para que, por exemplo, a nossa geração possa um dia aspirar a ter também uma reforma. E este é o esforço que nos convoca a todos, Partido Socialista incluído, ou a nós, caso esteja o Partido Socialista no poder.

Esta saída limpa destina-se, sobretudo, a impressionar os mercados, tendo em vista o recurso, num momento posterior, a um programa cautelar. Isso é uma hipótese que Portugal deve manter em aberto?
Não, esta é uma saída limpa para que não se repita, espero, um programa de ajustamento, ou uma base cautelar, como a que acaba de insinuar. Até porque os programas cautelares têm uma consagração jurídica definida, o programa cautelar é um programa cautelar, não tem um programa cautelar quem quer. O que temos, manifestamente, não é um programa cautelar, nem assenta num programa cautelar, é uma saída limpa.

Mas o programa cautelar não é agora ou nunca. Pode aceder-se mais tarde, se for preciso?
Pode, o que não invalida o que há pouco dizia sobre a avaliação externa dos credores e dos mercados comparativa entre Portugal e a Irlanda. No mínimo, causaria alguma perplexidade que a Irlanda tivesse conseguido uma saída limpa e Portugal não. Estou convencido que isso teria um repercussão nos mercados, que são muito nervosos em relação a suposições, muitas vezes injustas. A partir do momento em que a Irlanda teve uma saída limpa, fazia sentido que Portugal, tendo condições, tivesse também essa saída limpa.

O CDS-PP decidiu, nestas eleições europeias, concorrer numa lista única com o PSD. É boa ideia manter a ligação para as legislativas de 2015?
A coligação foi, nas eleições europeias, justificada por dois partidos que estão juntos no governo e que, como se vê, serão avaliados, mesmo nas eleições europeias , conjuntamente por aquilo que fizeram no governo. Se as circunstâncias, que agora se verificam, se mantiverem em 2015, parece-me, obviamente, que sim. Mas, ainda assim, essa é uma avaliação que acontecerá a seu tempo.

A eventual redução de impostos, que é a bandeira tradicional do CDS, pode ser uma questão fundamental na decisão de manter uma coligação com o PSD?
A decisão de baixar impostos depende de circunstâncias que, no momento, PSD e CDS, só por si, nem sequer dominam e que tem a ver com o comportamento da própria economia. Tendencialmente, parece-me que, podendo-se, quer os sociais-democratas, quer o CDS, defende a descida dos impostos. Mas isso, conjugando-se todas as variáveis. Gostaria que essa descida pudesse acontecer, possivelmente, ainda durante a presente legislatura.

Estaria disponível para integrar uma solução governativa em 2015?
Estou disponível para integrar as listas da coligação Aliança Portugal, ao Parlamento Europeu e para cumprir o meu mandato. Já foi assim no último mandato.

E vai cumprir o mandato até ao fim, aconteça o que acontecer?
Tal como cumpri na precedente legislatura.

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