Icel. Há 70 anos rainha no mundo das facas

Fábrica ICEL

Fotografia de Jorge Amaral/Global Imagens
Texto publicado no Dinheiro Vivo

Facas e cutelos de cima a baixo, por todo o lado, lâminas incrivelmente cortantes – garante quem as faz -, mas a certeza de que nunca, em 70 anos de história, se registou qualquer incidente. Assim, tudo pronto na terra das facas – Benedita, concelho de Alcobaça – para a entrevista a Nuno Radamanto, o novo presidente da Icel – Indústria de Cutelarias da Estremadura.

Com 35 anos, o antigo piloto de aviões, assumiu há pouco mais de um ano a liderança da empresa de cutelaria fundada, em 1945, pelo seu avô, Joaquim Jorge. “A Icel seguiu o caminho natural de renovação. Há 40 anos passou para a segunda geração da família, até que, em fevereiro de 2013, o universo dos acionistas, a família, teve a convicção de que era chegada a hora de entregar a empresa à terceira geração para que esta a leve até à quarta”, explicou Nuno Radamanto. Toda a família, não. O neto de Joaquim Jorge ganhou à risca, com 55% dos votos, à lista constituída por elementos da segunda geração, que entendiam dever permanecer à frente da Icel.

Agora, o mandato prolonga-se até 2017 e o objetivo da nova equipa de gestão é, sem ruturas, preservar o principal legado deixado pelos tios, a solidez financeira, que lhes permitiu atravessar a crise sem problemas, ao mesmo tempo que espera recuperar a faturação de outros tempos. Em 2013, a Icel registou um volume de negócios de 7,5 milhões de euros – saíram da fábrica 4,5 milhões de peças -, mas, em 2004, foram 10 milhões de euros.

“Esperamos voltar a este nível dentro de cinco ou seis anos, através da entrada em novos mercados, mas também porque esperamos que os mercados mais penalizados pela crise retomem os valores anteriores”, adiantou Nuno Radamanto. Em cinco anos, a empresa perdeu 20% do negócio, tendo iniciado a recuperação no ano passado. Os lucros, em 2013, totalizaram 400 mil euros, estando previsto para este ano um crescimento dos resultados líquidos entre 50% e 60%.

A Icel vende apenas 22% em Portugal, sendo o restante para exportação. Espanha, Estados Unidos, Canadá e Grécia, que até antes da crise era o maior mercado – em 2007, a Icel vendeu mais neste país do que em Portugal – são os motores das exportações. Mas há outros que começam a ganhar relevância, como alguns países árabes e do sudeste asiático.

“Temos tido um crescimento exponencial das vendas na Arábia Saudita, com quem temos relações comerciais há 25 anos. Conseguimos um bom parceiro na área da distribuição, que fez bem o seu trabalho e tornou a marca Icel conhecida”, justificou Nuno Radamanto. Singapura, Indonésia, Vietname, Filipinas e Malásia e, ainda no início, a Tailândia são outros dos destinos das facas portuguesas.

A entrada nos mercados continua a ser o trabalho mais difícil, já que a Icel disputa o negócio com os maiores do mundo, sobretudo alemães e suíços, entre os quais a Victorinox, o principal player mundial e dona dos emblemáticos canivetes multiúsos. Há uma vantagem, que para já tem tido importância: os preços da Icel são competitivos face aos da concorrência, sobretudo, por causa do custo inferior da mão-de-obra. “Seria utópico dizer que não beneficiamos deste fator, mas a vantagem que temos face à Alemanha e Suíça perdemo-la, em maior escala, com os produtores da Ásia”, adiantou Nuno Radamanto.

Na fábrica da Benedita trabalham 162 pessoas. Aliás, na Benedita situam-se as outras fábricas de cutelaria existentes em Portugal, uma das quais controlada por um dos irmãos do fundador da Icel, que optou por se separar e montar o seu próprio negócio. Na cutelaria de mesa, distinta, o reduto português é Guimarães.

Além de vender para o segmento doméstico, hotéis, restaurantes, matadores e toda a indústria de processamento de alimentos, a Icel produz para outras marcas, entre as quais o seu concorrente Victorinox, que em Portugal nunca entrou em força, porque os distribuidores se mantêm fiéis à indústria local. Para os concorrentes suíços saem facas com cabo de madeira pau santo, facas de pão com lâmina curva, que em Portugal não são comuns, facas de ostra de estilo americano e ainda alguns modelos de facas de chef e facas de shoarma. “Todos os anos cresce o negócio com a Victorinox”, adianta o gestor. O catálogo da Icel conta com 1200 referências, prontas a produzir.

A variedade é, segundo Nuno Radamanto, um ponto forte da Icel, aspeto que foi alavancado, recentemente, com o investimento de 700 mil euros numa máquina de corte a laser. Antes, o aço – 850 toneladas por ano – era cortado por pancada, com prensas, o que exigia um molde para cada modelo de lâmina. Agora, a produção de uma lâmina está à distância de uns cliques no computador, o que torna o processo mais flexível, facilitando a produção de facas à medida dos desejos dos clientes. Outro facto relevante assenta na poupança de matéria-prima, contabilizada, neste momento, em cerca de 10%.

E há uns meses a Icel iniciou experiências com um tipo de aço nunca antes utilizado em cutelarias, vindo da Finlândia, que irá permitir que a faca corte bem durante mais tempo, sem necessidade de afiar. “Quando são novas todas cortam bem. As pessoas procuram qualidade duradoura”, conclui o presidente da Icel.

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