É muito mais do que comprar tomate nacional

Texto publicado no Diário de Notícias

Opinião

Já não sabemos viver sem bancos. À conta de depósito à ordem, onde cai o salário todos os meses, com direito a cartões de débito e crédito, soma-se, em muitos casos, o crédito à habitação, o seguro de saúde e o PPR. E isto é apenas o mais básico.

Não é preciso ser-se rico para se viver dependente dos bancos. Grande parte da nossa vida está nas mãos deles. Aliás, o País vive, tristemente, à sombra da banca. Mais que não seja é também por isso que as notícias sobre o que se passa no Grupo Espírito Santo (GES) e, por tabela, no Banco Espírito Santo (BES) nos dizem respeito. A todos e não apenas aos clientes do BES.

Só se entrega tanto a alguém de confiança. E a confiança, pilar-chave de todo o setor bancário, foi indiscutivelmente afetada no caso do BES. Os clientes têm, neste momento, dúvidas sobre a sua relação com o banco. São dúvidas legítimas, mas que não têm, para já, fundamento. O Banco de Portugal, entidade que regula e supervisiona o sistema bancário nacional, garante a solidez financeira do BES, ou seja, que os depositantes do banco estão protegidos face a um eventual agravamento da situação.

Os clientes do BES não têm, por isso, com que se preocupar. Ou antes, segundo o Banco de Portugal, os clientes do BES não têm, por isto, de mudar de banco. Além da garantia de que o banco está suficientemente capitalizado, foi imprimida uma rutura com a anterior gestão. Ricardo Salgado, que conduziu o banco durante décadas, foi afastado e substituído por Vítor Bento. Goste-se mais ou menos, Vítor Bento é uma boa escolha para recuperar a reputação do BES.

Agora, este caso do BES é oportuno para se perceber, de uma vez por todas, que as decisões de consumo, de bens e serviços, são mais importantes do que podemos pensar. Nunca devem ser tomadas ao acaso e, ainda que o preço seja cada vez mais preponderante, este não deve ser o único fator a pesar nas escolhas que fazemos.

Não se exige a leitura de um relatório e contas da empresa antes de escolher o fornecedor de telecomunicações, nem se pede que conheçamos de cor os rácios da empresa onde fazemos as compras de supermercado – é para assegurar a idoneidade e o cumprimento das mais elementares regras que existem reguladores -, mas faz todo o sentido pensar um minuto antes de decidir o que consumir. Não é indiferente a estrutura acionista nem a liderança da empresa, por exemplo.

Ser consumidor responsável é muito mais do que comprar tomate nacional. O poder dos consumidores exigentes e informados, neste mundo digital, pode muito bem ser o quinto poder. E a concorrência existe para usar e abusar.

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