Esqueçam os ridículos descontos no IRS

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Por mais anos que viva jamais me esquecerei de um ano especialmente trabalhoso – a crise no BCP impunha muitas páginas de jornal, logo um horário exagerado. Mas guardo esta fase da minha vida no capítulo das boas memórias.

Confrontado com as dificuldades que tinha em conciliar os meus prazos de fecho com a minha vida pessoal, mais concretamente com os horários da minha filha, então com cinco anos, o então diretor do jornal tocou-me no coração. Uma certa manhã, depois de um fecho mais complicado, tinha um ramo de rosas, cor champagne, em cima da minha secretária, mas não foi isso que me fez voltar, nesse mesmo dia, a trabalhar mais horas ainda. A minha filha tinha sido recebida, ao final da tarde, no jornal, com direito a lanche, caderno e lápis de cor e os mimos da secretária de redação. Isto aconteceu mais do que uma vez. E lembro-me, como se fosse hoje, de ter espreitado pelo canto do olho, de a ter visto entretida, e de ter conseguido sossegar-me.

Aquele jornal era, sobretudo por causa daquele diretor, aquilo que este país não é: family friend. Conto esta história agora, quando tanto se fala de promover a natalidade – um problema sério em toda a Europa, sobretudo nos países mais desenvolvidos – porque gostava que os decisores políticos, os empresários e os gestores percebessem que os portugueses não vão passar a ter mais filhos por causa de um desconto de 50 euros no IRS, ou de um aumento de 20 euros no abono de família.

Nos dias de hoje – o mundo mudou também na forma como somos pais -, só nascerão mais crianças se as pessoas conseguirem ter mais tempo sem perda de rendimento, se as empresas facilitarem a redução ou suspensão da atividade, mas também promoverem o regresso ao mundo do trabalho, se os chefes entenderem que os seus trabalhadores só serão bons profissionais se puderem ser bons pais. Parece óbvio, não é?! Mas a realidade está bem longe. No dia-a-dia prevalece, ainda, a incompreensão, a exigência, a pressão e tudo o que adia a decisão de termos filhos.

Por isso, mais do que estudar mais apoios financeiros, mudem-se as mentalidades, resolva-se o problema da falta de equipamentos sociais de qualidade, cuide-se do Serviço Nacional de Saúde, aposte-se na educação e na igualdade de géneros, reveja-se as políticas de habitação e transportes, enfim, cuide-se das famílias.

Custa dinheiro, sem dúvida, que o país não tem, é verdade. Lá voltamos sempre ao mesmo, ao irrevogável défice. Mas para evitar que Portugal se torne num país ainda mais envelhecido, com todas as consequências que isso também terá para as contas do Estado, será necessário, primeiro, acabar com as vistas curtas deste mundo. Assim, talvez daqui a 10 anos o país seja menos triste.

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