Pior é quem contrata godinhos lopes

Crónica publicada no Diário de Notícias e no Dinheiro Vivo

Opinião

O espectáculo dado por Godinho de Matos abre as portas às mais variadas reflexões, mas desta vez vou ficar-me pelo espelho que é da falta de cultura de mercado das empresas portuguesas [perdoem-me as exceções] e do persistente desrespeito pelos investidores, sobretudo os pequenos.

Atente-se ao que disse o ex-administrador independente do banco que foi de Ricardo Salgado e que lá estava sobretudo para zelar pelos interesses dos acionistas minoritários: “Em seis anos entrei mudo e saí calado, bem como todos os administradores.”

O caso do BES é, de facto, perigoso em muitos aspetos, também porque é propício a generalizações, mas neste caso justifica-se. Em Portugal, infelizmente, é assim, muitas empresas que decidiram expor-se em troca de financiamento direto, através da bolsa, só se lembram dos seus acionistas anónimos quando precisam deles, que é como quem diz quando querem mais dinheiro. A maioria encara as obrigações decorrentes do facto de estar cotada como um fardo. Por exemplo, perante um pedido de informação relevante, é frequente as empresas responderem que não facultam esses dados porque não têm de o fazer, não são cotadas. E no final da resposta, sente-se um suspiro de alívio. Há muitos segredos nas empresas portuguesas – o BES é exemplar – e não são industriais nem de Estado. Adia-se, até mais não poder a decisão de admissão à cotação num mercado regulamentado e prefere-se o financiamento junto da banca, suportando custos de intermediação. E depois é a pescadinha de rabo na boca. De que serve estar cotada numa bolsa sem liquidez e profundidade e onde a transparência é rara? Os investidores não fazem negócio nesses mercados, pelo contrário, preferem pagar mais em Londres porque têm a garantia de que aí dificilmente haverá surpresas.

Ainda sou do tempo do capitalismo popular, da dourada década de 90 do século passado, quando qualquer um tinha ações em carteira, quando tudo estava a nascer e se acreditava que Lisboa iria ser uma verdadeira praça financeira. Entretanto muita coisa aconteceu, vivemos uma crise sem precedentes e, claro, a bolsa, o reflexo da economia nacional e do estado das nossas empresas, foi definhando. O BES foi a estocada final.

Agora, que já se começa a falar na recuperação, seria bom que também se pensasse na bolsa, se aprendesse com os erros e se percebesse, finalmente, que a existência de um mercado de capitais tem um papel insubstituível no desenvolvimento económico e social. E que a redução dos custos de intermediação proporcionados pelo financiamento direto é um fator de competitividade e potenciador de crescimento. Comece-se pelo extermínio da categoria de gestores que contratam godinhos de matos para figuras de corpo presente.

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Quando os media devem ser muito estúpidos

Opinião

Crónica publicada no Dinheiro Vivo e no Diário de Notícias

Quantas pessoas viram as fotografia íntimas de Jennifer Lawrence e de outras celebridades, colocadas online esta semana? Ninguém sabe ao certo, mas podemos estimar, sem grande margem de erro, que foram muitos, mesmo muitos, milhões de pessoas.

Pessoas comuns, como eu e você, que por terem coscuvilhado a privacidade da atriz não passaram, repentinamente, a ser criminosas, ou umas grandessíssimas perversas. Um simples olhar não é um ato de violação sexual, como quem viu as imagens não deve ser equiparado a um predador sexual. É, por isso, uma tolice defender a punição, não só para os hackers que expuseram a intimidade destas figuras públicas, mas também para quem, ainda que pelos motivos mais estúpidos, clicou nos links para aceder às ditas fotografias.

Agora, isto não é igual a dizer que está tudo bem, que a decisão de ver as fotografias foi correta e que daí não vem mal ao mundo. Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, também pelos conteúdos que consumimos.

Imagine que, num belo dia, chegava, como todas as manhãs, ao seu local de trabalho e que, minutos mais tarde, percebia que toda a gente, mesmo toda a gente, tinha acedido, contra a sua vontade, a informação pessoal, privada e constrangedora.

Bastaria um segundo para tentar colocar-se no lugar de Jennifer Lawrence para, provavelmente, perceber que o facto de as imagens estarem disponíveis não é argumento suficiente para justificar tamanha invasão de privacidade. Porque é que é condenável escutar atrás das portas, ou abrir correspondência alheia e já é aceitável ver fotografias íntimas de figuras públicas, publicadas sem a sua autorização, só porque estas estão à distância de um clique?

De moral e bons costumes, cada um toma a dose que lhe convier e o debate é infinito e pode ser pantanoso, mas estes casos são sempre mais uma oportunidade para pensarmos sobre o nosso papel enquanto consumidores de conteúdos. Ver – e partilhar -, ou não estas fotografias, como ver ou não o vídeo, posto a circular na internet, da decapitação do jornalista norte-americano James Foley, ainda que a situação seja infinitamente mais grave, devem ser decisões ponderadas, pelas consequências que têm.

Outra reflexão importante. Porque é que os conteúdos, informativos e não só, deixaram de satisfazer os consumidores? Porque é os consumidores ignoram as notícias, informação útil e relevante, e absorvem, numa compulsividade assustadora, tanto lixo, tanta inutilidade? Os media têm sido responsabilizados pelo estado das coisas, acusados de não saber chegar aos seus clientes, de não compreenderem o público. Pode ser, mas não é só isso, não pode ser só isso. De qualquer forma, falo por mim, nestes casos, será sempre preferível que os media se mantenham estúpidos.

O lado bom de encolher a vida

Crónica publicada no Dinheiro Vivo

credit Lori Parr (2)

Porque será que alguém decide viver em 13 metros quadrados, onde uma casa inteira encaixa na área de um quarto? Ou é um freak, que ainda vive o sonho de ser como o Huckleberry Finn, ou então, é um falido, a quem a crise não deu alternativa.

É inconcebível para a maioria trocar, de livre vontade, o conforto de uma casa grande por um espaço exíguo onde, à noite, a cozinha se transforma em quarto. Não sabemos viver assim, fomos criados para ter uma casa, de preferência, própria e grande. E assim se dá início à mais longa relação das nossas vidas, com o banco. Grande parte do salário é, aliás, usada para sustentar a casa e o único custo está longe de ser o da mensalidade do crédito.

A verdade é que a nossa incredulidade perante tamanha revolução no estilo de vida de alguém tem a sua razão de ser. O movimento das tiny houses não nasceu com o subprime, mas cresceu muito com a crise financeira. As motivações não são exclusivamente financeiras, mas sim, os seus adeptos foram, quase todos, confrontados com a impossibilidade de continuar a pagar a hipoteca ao banco.

Ou seja, a maior parte das pessoas não passou a viver numa mini casa porque quis. Mas o mais interessante é que, apesar disso, estão longe de ser uns desgraçados, o que pode ser comprovado pela reportagem da Mariana Pinheiro.

Muitos passaram a viver em casas feitas pelas suas próprias mãos, o que confere aquele extra de história ao espaço, gastam dinheiro noutras coisas que lhes dão mais prazer, como viagens, conseguem poupar, o que antes era uma miragem, vivem sem acumular, sem desperdiçar, e todo o pedaço de casa faz sentido, tudo o que têm tem uma razão de ser.

Há uma frase que explica quase tudo : “A maior alegria de viver numa mini casa é a sensação de liberdade que advém de viver com pouco”. Pois é, a vida é cada vez mais complexa, que a ideia de que a nossa vida inteira cabe toda numa assoalhada e é facilmente gerível é mesmo muito atrativa.

A vida social de Vítor Bento

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Anteontem ao almoço, falava-se sobre a crise no grupo Espírito Santo, mais concretamente sobre Vítor Bento, o novo presidente executivo do BES. Entre deliciosos pedaços de sashimi, num japonês paredes meias com o escritório do mais recente banqueiro português, considerou-se, às tantas, que Vítor Bento dificilmente será uma solução de longo prazo para o banco. Uma das razões apontadas foi o facto de, supostamente, Vítor Bento não ter uma vida social intensa e de, alegadamente, “viver muito só ele e a mulher”.

Nestas décadas de Ricardo Salgado e Jardim Gonçalves, habituámo-nos à ideia de que administrar um banco é, principalmente, gerir e manter uma intrincada rede de interesses financeiros, empresariais, sociais e políticos, que é, sobretudo, almoços e jantares, cocktails e vernissages, ver e ser visto, enfim, um infatigável networking.

Como se fosse inconcebível um banco grande e lucrativo ser liderado por alguém que prefere limitar, ao mínimo, a parte forçada e interesseira da sua vida social.

É verdade que ser banqueiro é muito mais do que acautelar depósitos, avaliar risco e emprestar dinheiro, mas sabendo como se teceram e tecem as teias no mundo dos negócios – e da política -, esta característica de personalidade poderá ser, a confirmar-se, uma grande vantagem de Vítor Bento.

Os amiguismos, os excessos de confiança, que depois resultam em inexplicáveis presentes de milhões de euros, os abusos de confiança, os favores e a filosofia do uma mão lava a outra não só representam o que de mais desesperante existe no homem, como se pode traduzir, em termos muito práticos, em negócios terríveis.

Por exemplo, a excessiva exposição de alguns bancos a acionistas e amigos – a entidades relacionadas – é, em tempos de crise, a face mais visível de graves erros de gestão. Muitas vezes, até, as competências sociais servem apenas para tentar disfarçar a fatal incompetência.

O caderno de encargos de Vítor Bento passa, acima de tudo, por restaurar a credibilidade do BES, a confiança dos seus clientes, passa por reafirmar o banco enquanto um dos principais players do sector, por pô-lo a competir, passa por fazê-lo crescer e voltar aos lucros, nem que para isso tenha que deixar muitos telefonemas por atender, muita gente pendurada para almoço, muitos lugares vazios à sua espera.

Vítor Bento não sobreviverá sozinho, mas pode bem dispensar os amigos do costume. O não, não o automático das crianças, é a resposta mais difícil, e, em muitos casos, a única possível. No início, estranha-se, mas acredito que funciona. Da minha parte, quanto menos amigos conhecer a Vítor Bento tanto melhor.

O risco da improbabilidade

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Opinião

As náuseas são iguais quando assisto aos que pontapeiam quem já está caído no chão, ou quando vejo filas de babados ajoelhados para um beija-mão. E é, sobretudo, isto que me resta dizer sobre o espectáculo à volta da crise no Grupo Espírito Santo (GES), que esta semana acumulou mais uma improbabilidade – Ricardo Salgado foi detido, na qualidade de arguido, para interrogatório, no âmbito do caso Monte Branco.

Os sinais de que a supervisão e a justiça estão a funcionar existem e, se assim for, isso basta-me. Os crimes sob suspeita são graves e aquilo que se exige é, como sempre, um julgamento justo e um tribunal independente. E rápido, muito rápido. Sob pena de ser tarde de mais e as repercussões no próprio BES e na economia se tornarem insustentáveis.

A queda de Ricardo Salgado – outra improbabilidade – é, afinal, muito mais do que a ruína de um rico todo poderoso: é a falência de um nome, é a descredibilização de uma marca. Neste momento, alguém sabe o que se passa na cabeça de um cliente do BES?!

A lei protege a maioria dos depositantes, o Banco de Portugal garante, a toda a hora, que o banco está sólido e que uma coisa é o GES, outra coisa é o BES, mas só Vítor Bento e a sua equipa saberão, na verdadeira medida, qual o real impacto desta crise no negócio do banco. Imagino até que, se pudesse, o novo presidente executivo do banco – e o próprio Banco de Portugal – já teria refundado o BES, a começar por uma mudança de nome. Espírito Santo é, neste momento, tudo menos um nome recomendável.

E há mais. A falência de Ricardo Salgado e da família Espírito Santo é, também, mais um sintoma da fragilidade do país, de um país sem capacidade de investimento, onde não há dinheiro, onde os empresários vivem com a corda do endividamento ao pescoço e onde as empresas passam, uma atrás da outra, para as mãos de quem pode. Se não estava bem, ainda pode ficar pior, o país.

Esqueçam os ridículos descontos no IRS

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Por mais anos que viva jamais me esquecerei de um ano especialmente trabalhoso – a crise no BCP impunha muitas páginas de jornal, logo um horário exagerado. Mas guardo esta fase da minha vida no capítulo das boas memórias.

Confrontado com as dificuldades que tinha em conciliar os meus prazos de fecho com a minha vida pessoal, mais concretamente com os horários da minha filha, então com cinco anos, o então diretor do jornal tocou-me no coração. Uma certa manhã, depois de um fecho mais complicado, tinha um ramo de rosas, cor champagne, em cima da minha secretária, mas não foi isso que me fez voltar, nesse mesmo dia, a trabalhar mais horas ainda. A minha filha tinha sido recebida, ao final da tarde, no jornal, com direito a lanche, caderno e lápis de cor e os mimos da secretária de redação. Isto aconteceu mais do que uma vez. E lembro-me, como se fosse hoje, de ter espreitado pelo canto do olho, de a ter visto entretida, e de ter conseguido sossegar-me.

Aquele jornal era, sobretudo por causa daquele diretor, aquilo que este país não é: family friend. Conto esta história agora, quando tanto se fala de promover a natalidade – um problema sério em toda a Europa, sobretudo nos países mais desenvolvidos – porque gostava que os decisores políticos, os empresários e os gestores percebessem que os portugueses não vão passar a ter mais filhos por causa de um desconto de 50 euros no IRS, ou de um aumento de 20 euros no abono de família.

Nos dias de hoje – o mundo mudou também na forma como somos pais -, só nascerão mais crianças se as pessoas conseguirem ter mais tempo sem perda de rendimento, se as empresas facilitarem a redução ou suspensão da atividade, mas também promoverem o regresso ao mundo do trabalho, se os chefes entenderem que os seus trabalhadores só serão bons profissionais se puderem ser bons pais. Parece óbvio, não é?! Mas a realidade está bem longe. No dia-a-dia prevalece, ainda, a incompreensão, a exigência, a pressão e tudo o que adia a decisão de termos filhos.

Por isso, mais do que estudar mais apoios financeiros, mudem-se as mentalidades, resolva-se o problema da falta de equipamentos sociais de qualidade, cuide-se do Serviço Nacional de Saúde, aposte-se na educação e na igualdade de géneros, reveja-se as políticas de habitação e transportes, enfim, cuide-se das famílias.

Custa dinheiro, sem dúvida, que o país não tem, é verdade. Lá voltamos sempre ao mesmo, ao irrevogável défice. Mas para evitar que Portugal se torne num país ainda mais envelhecido, com todas as consequências que isso também terá para as contas do Estado, será necessário, primeiro, acabar com as vistas curtas deste mundo. Assim, talvez daqui a 10 anos o país seja menos triste.

Não é família, é familiaridade

Crónica publicada no Dinheiro Vivo

Opinião

Alexandre Soares dos Santos tem dito muitas coisas, mas há dias tocou na ferida: as broncas que envolvem a família Espírito Santo têm um impacto brutal na credibilidade das empresas de cariz familiar.

A vida está cheia destas crises de que fala o dono do Pingo Doce, de casos que terminam tão mal que, no final, não resiste nem negócio nem família.

Existem, aliás, estudos sobre o tema. Ricardo Reis, que escreve nesta mesma página, citou, na semana passada, uma investigação académica recente, conduzida pelos economistas William Mullin e Antoinette Schoar, sobre o que distingue as empresas familiares das outras.

No inquérito dirigido a 800 CEO das maiores empresas de 22 mercados emergentes – as empresas familiares existem em menor escala nos países mais desenvolvidos -, conclui-se, por exemplo, que os gestores profissionais de empresas não familiares substituem com maior frequência os quadros de topo, ou resistem menos a fechar negócios com viabilidade duvidosa.

Mas o que Soares dos Santos não disse é que o que se passa no GES e no BES também poderia ter acontecido num grupo onde, da portaria até ao último andar, ninguém fosse da família de ninguém. Bastava que existisse familiaridade. Entre pais e filhos, entre irmãos e primos, ou apenas entre amigos e sócios.

Henrique Granadeiro não tem, que se saiba, qualquer relação familiar com os Espírito Santo, mas é reconhecida a forte amizade que o liga a Ricardo Salgado. A PT teria investido, há poucos meses, quase 900 milhões de euros de papel comercial da Rioforte (empresa do grupo Espírito Santo) se não existisse qualquer relação pessoal entre o chairman da PT e o histórico banqueiro? Provavelmente, não.

Terá sido esta amizade a tramar a PT. As amizades não justificam, mas explicam muitos maus atos de gestão por estas empresas fora. Ora, isto num país do tamanho de uma gamela, onde o amiguismo está entranhado nas mais diversas áreas da nossa vida, pode assumir proporções verdadeiramente preocupantes. É também por isso que são manifestamente exageradas as notícias do sucesso de Carlos Costa.

É muito mais do que comprar tomate nacional

Texto publicado no Diário de Notícias

Opinião

Já não sabemos viver sem bancos. À conta de depósito à ordem, onde cai o salário todos os meses, com direito a cartões de débito e crédito, soma-se, em muitos casos, o crédito à habitação, o seguro de saúde e o PPR. E isto é apenas o mais básico.

Não é preciso ser-se rico para se viver dependente dos bancos. Grande parte da nossa vida está nas mãos deles. Aliás, o País vive, tristemente, à sombra da banca. Mais que não seja é também por isso que as notícias sobre o que se passa no Grupo Espírito Santo (GES) e, por tabela, no Banco Espírito Santo (BES) nos dizem respeito. A todos e não apenas aos clientes do BES.

Só se entrega tanto a alguém de confiança. E a confiança, pilar-chave de todo o setor bancário, foi indiscutivelmente afetada no caso do BES. Os clientes têm, neste momento, dúvidas sobre a sua relação com o banco. São dúvidas legítimas, mas que não têm, para já, fundamento. O Banco de Portugal, entidade que regula e supervisiona o sistema bancário nacional, garante a solidez financeira do BES, ou seja, que os depositantes do banco estão protegidos face a um eventual agravamento da situação.

Os clientes do BES não têm, por isso, com que se preocupar. Ou antes, segundo o Banco de Portugal, os clientes do BES não têm, por isto, de mudar de banco. Além da garantia de que o banco está suficientemente capitalizado, foi imprimida uma rutura com a anterior gestão. Ricardo Salgado, que conduziu o banco durante décadas, foi afastado e substituído por Vítor Bento. Goste-se mais ou menos, Vítor Bento é uma boa escolha para recuperar a reputação do BES.

Agora, este caso do BES é oportuno para se perceber, de uma vez por todas, que as decisões de consumo, de bens e serviços, são mais importantes do que podemos pensar. Nunca devem ser tomadas ao acaso e, ainda que o preço seja cada vez mais preponderante, este não deve ser o único fator a pesar nas escolhas que fazemos.

Não se exige a leitura de um relatório e contas da empresa antes de escolher o fornecedor de telecomunicações, nem se pede que conheçamos de cor os rácios da empresa onde fazemos as compras de supermercado – é para assegurar a idoneidade e o cumprimento das mais elementares regras que existem reguladores -, mas faz todo o sentido pensar um minuto antes de decidir o que consumir. Não é indiferente a estrutura acionista nem a liderança da empresa, por exemplo.

Ser consumidor responsável é muito mais do que comprar tomate nacional. O poder dos consumidores exigentes e informados, neste mundo digital, pode muito bem ser o quinto poder. E a concorrência existe para usar e abusar.

Antes fosse uma guerra de primos

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

A situação no Grupo Espírito Santo (GES) e no Banco Espírito Santo (BES) é preocupante, mas não por causa das guerras familiares. A zanga entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi é apenas a parte mais mediática e excitante do problema, mas é, de longe, a menos grave. A história está cheia de casos de famílias desavindas, de negócios familiares que se desmontam, ou morrem porque os sócios – familiares, ou até amigos – se desentendem. O poder, mais do que o dinheiro, é motivo primordial de ruturas.

O que é alarmante – e distinto – nesta crise entre os Espírito Santo é o que está por detrás desta zanga entre os dois banqueiros, porque é que o presidente do BES e o presidente do BES Investimento romperam e porque é que deixaram de confiar um no outro.

A confiança mútua, vantagem que existe entre familiares face a outros parceiros sem relações pessoais, perdeu-se no GES e no BES e não se sabe porquê. É possível, mas pouco provável, que a guerra, que tem saído ao bochechos na comunicação social – a compra por parte da PT ao seu principal acionista, o BES, de 900 milhões de euros (!) de papel comercial e apenas o último copo servido ao país – se deva apenas ao facto de, subitamente, Ricciardi querer tomar o lugar de Salgado e de este estar, aos 70 anos, absolutamente agarrado a uma cadeira. O poder cega, mas não é crível que dois experientes e responsáveis banqueiros tenham atitudes comprometedoras do futuro de um banco com a dimensão e importância do BES.

As irregularidades detectadas na Espírito Santo International, os graves problemas financeiros no Grupo Espírito Santo, as suspeitas da prática de crimes de mercado são explicações mais plausíveis para a crise no grupo. E poderá não se ficar por aqui. A guerra entre Salgado e Ricciardi e as divergências sobre a sucessão no BES é consequência destes factos e não o contrário.

É absolutamente incompreensível, a ser verdade, que o Banco de Portugal tenha precipitado a sucessão de Ricardo Salgado só porque este atingiu os 70 anos e há um primo que lhe quer o lugar, ao mesmo tempo que é disparatado pensar que Carlos Costa não quer um Espírito Santo à frente do banco só porque sim, se a família continua a ser o principal acionista da instituição, com 25%, como ainda é incrível que a escolha para sucessor, apoiada pelo supervisor, recaia sobre o braço direito e esquerdo de Salgado, Morais Pires.

A escolha do CFO de Salgado é garantia de continuidade, uma solução de compromisso, a saída possível quando não se pode mudar os acionistas do BES. O Banco de Portugal de Carlos Costa pode começar a rezar para que tudo dê muito certo neste novo-velho BES.

Não façam nada

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Não vale desvalorizar. É verdade que um trimestre não faz o ano, também é verdade que existem fatores irrepetíveis, como a paragem da refinaria de Sines, mas a realidade é dura: no primeiro trimestre deste ano, a economia interrompeu um ciclo de crescimento e caiu 0,7% em relação aos últimos três meses de 2013. Em termos homólogos, verificou-se um crescimento – 1,2% -, mas o que seria se assim não fosse? Alguém se esqueceu de como deixámos 2012?

Podemos desvalorizar, valorizar o caminho e apagar o resultado destes primeiros três meses do ano, dizer que depois de um quarto trimestre de 2013 tão generoso seria difícil repetir a proeza, podemos destacar o comportamento do consumo interno, que segurou, para o bem e para o mal, os (maus) resultados deste início do ano, podemos dizer muita coisa, mas não estamos a ser honestos e consequentes.

Vamos esperar pelos resultados do próximo trimestre, que permitirão definir com maior segurança uma tendência, mas a verdade – indesmentível – é que a recuperação da economia é frágil, tão frágil que assusta. Surpreendente seria o contrário.

As empresas não têm como continuar a aumentar as exportações, porque não investem, os bancos continuam atolados em malparado e, por isso, incapazes de assegurar o financiamento de que a economia necessitaria, e as famílias estão, mais uma vez, com a espada dos impostos sobre a cabeça (quem sabe qual será o comportamento do consumo até ao final do ano…).

Isto e muito mais resulta na sensação terrível de que o país não sai do mesmo lugar, que remamos todos, uns mais do que outros, com cada vez mais esforço, para não sair do mesmíssimo lugar.

No final, é isto que conta: entre janeiro e março, a economia caiu 0,7% face ao período de outubro a dezembro de 2013, quando as expectativas apontavam para um crescimento de 0,4% do PIB. E a responsabilidade deste resultado é, claro, do governo: do de Passos Coelho, que sossega os mercados, ao ameaçar com aumento de impostos, mas também do de Paulo Portas, que, inebriado pelas europeias de dia 25, só lhe falta prometer uma descida do IRS já para o mês que vem, logo a seguir às eleições.

Enquanto o governo não perceber que os mercados não são burros e que este sossego, que nos dá, agora, juros historicamente baixos, só durará até ao próximo (mínimo) deslize – que, indesejavelmente, irá acontecer -, enquanto este governo não perceber que de pouco serve cumprir as metas – estas metas -, assim!, porque se arrasa com o país, que são as pessoas, enquanto nada mudar, por aqui andaremos, num ramerrame sufocante. O país precisa de crescer mais e não vai lá assim, cada vez mais afundado em dívida. Com este governo e com estas políticas não há espaço para crescer.

Os números da economia referentes ao primeiro trimestre deste ano não são a carta que derruba o frágil castelo que é a política deste governo, são apenas mais um dado para cima da mesa de um país que não sabe como vai sobreviver a uma saída limpa.