Património?! Que é isso?

Opinião

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Um dos cafés do último andar dos Armazéns do Chiado está fechado para obras de remodelação e a habitual placa colocada para prometer brevidade e pedir desculpas pelo incómodo acrescentava que eles, presumo que os gestores do centro comercial, se preocupam em preservar o nosso património. Nunca tinha dado por este tipo de referência num espaço comercial. Os shoppings já são amigos do ambiente – as escadas rolantes e as lâmpadas são inteligentes para poupar energia, por exemplo -, mas estão longe de aparecerem em defesa do património colectivo. Aliás, é mais fácil imaginar um construtor a queixar-se dos custos e dos eventuais atrasos provocados pelas equipas de arqueologia.

 

É verdade que o Chiado faz parte do centro histórico de Lisboa e que os Armazéns funcionam num Imóvel de Interesse Público, mas não deixa de ser curiosa a utilização da palavra património num simples aviso, escrita para quem quiser ler enquanto faz as suas compras.

 

Este episódio coincidiu no tempo com outros dois: uma notícia do Público, que contava que as construtoras assinaram com o Ministério da Cultura um acordo para o chamado "cheque-obra", segundo o qual, as empresas às quais for adjudicada uma obra pública de valor igual ou superior a 2,5 milhões de euros comprometem-se a dar, em "espécie", um valor equivalente a 1% da empreitada para recuperação do património classificado; e ainda,  um aceso debate na sequência de mais uma das sessões das "Conversas sobre Arqueologia… em Leirial".  

 

No primeiro caso, trata-se de uma tentativa de aplicação do conhecido e transversal princípio do poluidor-pagador. Ou seja, o Governo tenta, à semelhança do que já sucede em Espanha, que quem intervém no território seja chamado a contribuir directamente na preservação do património. Que bem precisa. Curiosamente, o tema parece ser pacífico para os grupos de construção, que talvez tentem encontrar, em época de crise e na óptica de uma permanente reinvenção do modelo de negócio, alguma nova oportunidade.

 

No caso das "Conversas sobre Arqueologia… em Leiria", uma iniciativa da Câmara, depois das exposições feitas pela arqueóloga responsável pelas escavações feitas há oito anos na Praça Rodrigues Lobo, sob a qual se encontra uma necrópole medieval, e da antropóloga que estudou os esqueletos encontrados para tentar perceber como se vivia em Leiria naqueles tempos, eis que rebenta a bomba dos custos. E as acusações dos donos de obra, com discursos mais ou menos inflamados, a quem importa, na maioria dos casos, terminar a construção sem ter que se lembrar sequer que o património existe. 

 

Em Portugal, pouco importa, ainda, a construção de uma memória colectiva rica. Em Portugal, passa-se em relação ao património o mesmo que há uma geração com o ambiente e a sua preservação. Hoje, os nossos filhos já nascem ensinados a reciclar. Amanhã, quero acreditar, os nossos netos vão saber dar importância aos esqueletos ou a qualquer outro vestígio da história, por mais irrelevante que agora nos possa parecer.

 

Afinal, o custo de uma coisa é muito ou pouco consoante o valor que atribuímos à dita coisa. E a verdade é que hoje ainda se enterram esqueletos para construir garagens.

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