Pior é quem contrata godinhos lopes

Crónica publicada no Diário de Notícias e no Dinheiro Vivo

Opinião

O espectáculo dado por Godinho de Matos abre as portas às mais variadas reflexões, mas desta vez vou ficar-me pelo espelho que é da falta de cultura de mercado das empresas portuguesas [perdoem-me as exceções] e do persistente desrespeito pelos investidores, sobretudo os pequenos.

Atente-se ao que disse o ex-administrador independente do banco que foi de Ricardo Salgado e que lá estava sobretudo para zelar pelos interesses dos acionistas minoritários: “Em seis anos entrei mudo e saí calado, bem como todos os administradores.”

O caso do BES é, de facto, perigoso em muitos aspetos, também porque é propício a generalizações, mas neste caso justifica-se. Em Portugal, infelizmente, é assim, muitas empresas que decidiram expor-se em troca de financiamento direto, através da bolsa, só se lembram dos seus acionistas anónimos quando precisam deles, que é como quem diz quando querem mais dinheiro. A maioria encara as obrigações decorrentes do facto de estar cotada como um fardo. Por exemplo, perante um pedido de informação relevante, é frequente as empresas responderem que não facultam esses dados porque não têm de o fazer, não são cotadas. E no final da resposta, sente-se um suspiro de alívio. Há muitos segredos nas empresas portuguesas – o BES é exemplar – e não são industriais nem de Estado. Adia-se, até mais não poder a decisão de admissão à cotação num mercado regulamentado e prefere-se o financiamento junto da banca, suportando custos de intermediação. E depois é a pescadinha de rabo na boca. De que serve estar cotada numa bolsa sem liquidez e profundidade e onde a transparência é rara? Os investidores não fazem negócio nesses mercados, pelo contrário, preferem pagar mais em Londres porque têm a garantia de que aí dificilmente haverá surpresas.

Ainda sou do tempo do capitalismo popular, da dourada década de 90 do século passado, quando qualquer um tinha ações em carteira, quando tudo estava a nascer e se acreditava que Lisboa iria ser uma verdadeira praça financeira. Entretanto muita coisa aconteceu, vivemos uma crise sem precedentes e, claro, a bolsa, o reflexo da economia nacional e do estado das nossas empresas, foi definhando. O BES foi a estocada final.

Agora, que já se começa a falar na recuperação, seria bom que também se pensasse na bolsa, se aprendesse com os erros e se percebesse, finalmente, que a existência de um mercado de capitais tem um papel insubstituível no desenvolvimento económico e social. E que a redução dos custos de intermediação proporcionados pelo financiamento direto é um fator de competitividade e potenciador de crescimento. Comece-se pelo extermínio da categoria de gestores que contratam godinhos de matos para figuras de corpo presente.

A vida social de Vítor Bento

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Anteontem ao almoço, falava-se sobre a crise no grupo Espírito Santo, mais concretamente sobre Vítor Bento, o novo presidente executivo do BES. Entre deliciosos pedaços de sashimi, num japonês paredes meias com o escritório do mais recente banqueiro português, considerou-se, às tantas, que Vítor Bento dificilmente será uma solução de longo prazo para o banco. Uma das razões apontadas foi o facto de, supostamente, Vítor Bento não ter uma vida social intensa e de, alegadamente, “viver muito só ele e a mulher”.

Nestas décadas de Ricardo Salgado e Jardim Gonçalves, habituámo-nos à ideia de que administrar um banco é, principalmente, gerir e manter uma intrincada rede de interesses financeiros, empresariais, sociais e políticos, que é, sobretudo, almoços e jantares, cocktails e vernissages, ver e ser visto, enfim, um infatigável networking.

Como se fosse inconcebível um banco grande e lucrativo ser liderado por alguém que prefere limitar, ao mínimo, a parte forçada e interesseira da sua vida social.

É verdade que ser banqueiro é muito mais do que acautelar depósitos, avaliar risco e emprestar dinheiro, mas sabendo como se teceram e tecem as teias no mundo dos negócios – e da política -, esta característica de personalidade poderá ser, a confirmar-se, uma grande vantagem de Vítor Bento.

Os amiguismos, os excessos de confiança, que depois resultam em inexplicáveis presentes de milhões de euros, os abusos de confiança, os favores e a filosofia do uma mão lava a outra não só representam o que de mais desesperante existe no homem, como se pode traduzir, em termos muito práticos, em negócios terríveis.

Por exemplo, a excessiva exposição de alguns bancos a acionistas e amigos – a entidades relacionadas – é, em tempos de crise, a face mais visível de graves erros de gestão. Muitas vezes, até, as competências sociais servem apenas para tentar disfarçar a fatal incompetência.

O caderno de encargos de Vítor Bento passa, acima de tudo, por restaurar a credibilidade do BES, a confiança dos seus clientes, passa por reafirmar o banco enquanto um dos principais players do sector, por pô-lo a competir, passa por fazê-lo crescer e voltar aos lucros, nem que para isso tenha que deixar muitos telefonemas por atender, muita gente pendurada para almoço, muitos lugares vazios à sua espera.

Vítor Bento não sobreviverá sozinho, mas pode bem dispensar os amigos do costume. O não, não o automático das crianças, é a resposta mais difícil, e, em muitos casos, a única possível. No início, estranha-se, mas acredito que funciona. Da minha parte, quanto menos amigos conhecer a Vítor Bento tanto melhor.

O risco da improbabilidade

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Opinião

As náuseas são iguais quando assisto aos que pontapeiam quem já está caído no chão, ou quando vejo filas de babados ajoelhados para um beija-mão. E é, sobretudo, isto que me resta dizer sobre o espectáculo à volta da crise no Grupo Espírito Santo (GES), que esta semana acumulou mais uma improbabilidade – Ricardo Salgado foi detido, na qualidade de arguido, para interrogatório, no âmbito do caso Monte Branco.

Os sinais de que a supervisão e a justiça estão a funcionar existem e, se assim for, isso basta-me. Os crimes sob suspeita são graves e aquilo que se exige é, como sempre, um julgamento justo e um tribunal independente. E rápido, muito rápido. Sob pena de ser tarde de mais e as repercussões no próprio BES e na economia se tornarem insustentáveis.

A queda de Ricardo Salgado – outra improbabilidade – é, afinal, muito mais do que a ruína de um rico todo poderoso: é a falência de um nome, é a descredibilização de uma marca. Neste momento, alguém sabe o que se passa na cabeça de um cliente do BES?!

A lei protege a maioria dos depositantes, o Banco de Portugal garante, a toda a hora, que o banco está sólido e que uma coisa é o GES, outra coisa é o BES, mas só Vítor Bento e a sua equipa saberão, na verdadeira medida, qual o real impacto desta crise no negócio do banco. Imagino até que, se pudesse, o novo presidente executivo do banco – e o próprio Banco de Portugal – já teria refundado o BES, a começar por uma mudança de nome. Espírito Santo é, neste momento, tudo menos um nome recomendável.

E há mais. A falência de Ricardo Salgado e da família Espírito Santo é, também, mais um sintoma da fragilidade do país, de um país sem capacidade de investimento, onde não há dinheiro, onde os empresários vivem com a corda do endividamento ao pescoço e onde as empresas passam, uma atrás da outra, para as mãos de quem pode. Se não estava bem, ainda pode ficar pior, o país.

Não é família, é familiaridade

Crónica publicada no Dinheiro Vivo

Opinião

Alexandre Soares dos Santos tem dito muitas coisas, mas há dias tocou na ferida: as broncas que envolvem a família Espírito Santo têm um impacto brutal na credibilidade das empresas de cariz familiar.

A vida está cheia destas crises de que fala o dono do Pingo Doce, de casos que terminam tão mal que, no final, não resiste nem negócio nem família.

Existem, aliás, estudos sobre o tema. Ricardo Reis, que escreve nesta mesma página, citou, na semana passada, uma investigação académica recente, conduzida pelos economistas William Mullin e Antoinette Schoar, sobre o que distingue as empresas familiares das outras.

No inquérito dirigido a 800 CEO das maiores empresas de 22 mercados emergentes – as empresas familiares existem em menor escala nos países mais desenvolvidos -, conclui-se, por exemplo, que os gestores profissionais de empresas não familiares substituem com maior frequência os quadros de topo, ou resistem menos a fechar negócios com viabilidade duvidosa.

Mas o que Soares dos Santos não disse é que o que se passa no GES e no BES também poderia ter acontecido num grupo onde, da portaria até ao último andar, ninguém fosse da família de ninguém. Bastava que existisse familiaridade. Entre pais e filhos, entre irmãos e primos, ou apenas entre amigos e sócios.

Henrique Granadeiro não tem, que se saiba, qualquer relação familiar com os Espírito Santo, mas é reconhecida a forte amizade que o liga a Ricardo Salgado. A PT teria investido, há poucos meses, quase 900 milhões de euros de papel comercial da Rioforte (empresa do grupo Espírito Santo) se não existisse qualquer relação pessoal entre o chairman da PT e o histórico banqueiro? Provavelmente, não.

Terá sido esta amizade a tramar a PT. As amizades não justificam, mas explicam muitos maus atos de gestão por estas empresas fora. Ora, isto num país do tamanho de uma gamela, onde o amiguismo está entranhado nas mais diversas áreas da nossa vida, pode assumir proporções verdadeiramente preocupantes. É também por isso que são manifestamente exageradas as notícias do sucesso de Carlos Costa.

É muito mais do que comprar tomate nacional

Texto publicado no Diário de Notícias

Opinião

Já não sabemos viver sem bancos. À conta de depósito à ordem, onde cai o salário todos os meses, com direito a cartões de débito e crédito, soma-se, em muitos casos, o crédito à habitação, o seguro de saúde e o PPR. E isto é apenas o mais básico.

Não é preciso ser-se rico para se viver dependente dos bancos. Grande parte da nossa vida está nas mãos deles. Aliás, o País vive, tristemente, à sombra da banca. Mais que não seja é também por isso que as notícias sobre o que se passa no Grupo Espírito Santo (GES) e, por tabela, no Banco Espírito Santo (BES) nos dizem respeito. A todos e não apenas aos clientes do BES.

Só se entrega tanto a alguém de confiança. E a confiança, pilar-chave de todo o setor bancário, foi indiscutivelmente afetada no caso do BES. Os clientes têm, neste momento, dúvidas sobre a sua relação com o banco. São dúvidas legítimas, mas que não têm, para já, fundamento. O Banco de Portugal, entidade que regula e supervisiona o sistema bancário nacional, garante a solidez financeira do BES, ou seja, que os depositantes do banco estão protegidos face a um eventual agravamento da situação.

Os clientes do BES não têm, por isso, com que se preocupar. Ou antes, segundo o Banco de Portugal, os clientes do BES não têm, por isto, de mudar de banco. Além da garantia de que o banco está suficientemente capitalizado, foi imprimida uma rutura com a anterior gestão. Ricardo Salgado, que conduziu o banco durante décadas, foi afastado e substituído por Vítor Bento. Goste-se mais ou menos, Vítor Bento é uma boa escolha para recuperar a reputação do BES.

Agora, este caso do BES é oportuno para se perceber, de uma vez por todas, que as decisões de consumo, de bens e serviços, são mais importantes do que podemos pensar. Nunca devem ser tomadas ao acaso e, ainda que o preço seja cada vez mais preponderante, este não deve ser o único fator a pesar nas escolhas que fazemos.

Não se exige a leitura de um relatório e contas da empresa antes de escolher o fornecedor de telecomunicações, nem se pede que conheçamos de cor os rácios da empresa onde fazemos as compras de supermercado – é para assegurar a idoneidade e o cumprimento das mais elementares regras que existem reguladores -, mas faz todo o sentido pensar um minuto antes de decidir o que consumir. Não é indiferente a estrutura acionista nem a liderança da empresa, por exemplo.

Ser consumidor responsável é muito mais do que comprar tomate nacional. O poder dos consumidores exigentes e informados, neste mundo digital, pode muito bem ser o quinto poder. E a concorrência existe para usar e abusar.

Antes fosse uma guerra de primos

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

A situação no Grupo Espírito Santo (GES) e no Banco Espírito Santo (BES) é preocupante, mas não por causa das guerras familiares. A zanga entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi é apenas a parte mais mediática e excitante do problema, mas é, de longe, a menos grave. A história está cheia de casos de famílias desavindas, de negócios familiares que se desmontam, ou morrem porque os sócios – familiares, ou até amigos – se desentendem. O poder, mais do que o dinheiro, é motivo primordial de ruturas.

O que é alarmante – e distinto – nesta crise entre os Espírito Santo é o que está por detrás desta zanga entre os dois banqueiros, porque é que o presidente do BES e o presidente do BES Investimento romperam e porque é que deixaram de confiar um no outro.

A confiança mútua, vantagem que existe entre familiares face a outros parceiros sem relações pessoais, perdeu-se no GES e no BES e não se sabe porquê. É possível, mas pouco provável, que a guerra, que tem saído ao bochechos na comunicação social – a compra por parte da PT ao seu principal acionista, o BES, de 900 milhões de euros (!) de papel comercial e apenas o último copo servido ao país – se deva apenas ao facto de, subitamente, Ricciardi querer tomar o lugar de Salgado e de este estar, aos 70 anos, absolutamente agarrado a uma cadeira. O poder cega, mas não é crível que dois experientes e responsáveis banqueiros tenham atitudes comprometedoras do futuro de um banco com a dimensão e importância do BES.

As irregularidades detectadas na Espírito Santo International, os graves problemas financeiros no Grupo Espírito Santo, as suspeitas da prática de crimes de mercado são explicações mais plausíveis para a crise no grupo. E poderá não se ficar por aqui. A guerra entre Salgado e Ricciardi e as divergências sobre a sucessão no BES é consequência destes factos e não o contrário.

É absolutamente incompreensível, a ser verdade, que o Banco de Portugal tenha precipitado a sucessão de Ricardo Salgado só porque este atingiu os 70 anos e há um primo que lhe quer o lugar, ao mesmo tempo que é disparatado pensar que Carlos Costa não quer um Espírito Santo à frente do banco só porque sim, se a família continua a ser o principal acionista da instituição, com 25%, como ainda é incrível que a escolha para sucessor, apoiada pelo supervisor, recaia sobre o braço direito e esquerdo de Salgado, Morais Pires.

A escolha do CFO de Salgado é garantia de continuidade, uma solução de compromisso, a saída possível quando não se pode mudar os acionistas do BES. O Banco de Portugal de Carlos Costa pode começar a rezar para que tudo dê muito certo neste novo-velho BES.

O Natal dos banqueiros

Lisboa - Contas BES
[Fotografia de Gustavo Bom/Global Imagens]

Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo (BES), acaba de proferir esta bela merda de frase: “Os banqueiros vão passar um Natal complicado”.

Não sou das que vociferam, por tudo e por nada, contra os banqueiros, entendo a vida das empresas, a sua legítima procura pelo lucro, até porque, no final, os trabalhadores agradecem, mas há limites para a ridicularia. Nenhum banqueiro pode dizer que vai ter um Natal difícil, mesmo em sentido figurado. As pessoas, assim, nunca vão entender, pior, vão gozar e afastar-se, cada vez mais, dos empresários, banqueiros e governantes.

Pronto, era só isto, queria mostrar a minha indignação pelas cenas infelizes que vão sendo ditas, à mesma hora que, como contava a Catarina, 10 pessoas vasculhavam no lixo do Pingo Doce da Ferreira Borges…

Tenham só um pouco mais de bom senso, pensem antes de abrir a boca, por favor!

Joe Berardo: “Este Governo está a perseguir as pessoas do dinheiro”

Entrevista - Joe Berardo

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

É dono de uma das maiores fortunas do país. José Manuel Rodrigues Berardo é o sétimo filho de uma família da Madeira, onde começou por trabalhar a regular garrafas e a trabalhar em provas de vinho.
Aos 18 anos parte para a África do Sul onde dá largas ao espírito empreendedor. Aposta no negócio do ouro, e ganha. A partir daí entra em vários sectores: diamantes, petróleo, papel, banca, entre outros.
A notoriedade que alcançou naquele país, deu-lhe um lugar no conselho consultivo do antigo presidente Pieter Botha. Nos anos 80, regressa a Portugal, onde faz vários investimentos. É acionista de referência do BCP e da ZON.
É dono de uma das melhores e maiores coleções de arte moderna da Europa, é aliás um colecionador compulsivo, um hábito que vem desde a infância, quando juntava selos, caixas de fósforos, ou postais de navios que atracavam na Madeira. José Manuel Rodrigues Berardo tem 68 anos, é mais conhecido como Joe.

As notícias sobre a sua situação financeira não param. Há dias foi noticiado que a CGD, o BES e o BCP, exigem que pague uma dívida de mais de 400 milhões de euros, no processo que opõe o BBVA à Metalgest, de que é dono. Como é que vai pagar?
Não tem nada a ver com o como vai pagar, pois isso não é verdade. É falso que tenho esse problema dos bancos estarem a pedir-me o dinheiro. Temos acordos diversos, mas está tudo em dia. Como qualquer outra pessoa, se tem uma dívida tem a segurança e há acordos. Não está em default. Ninguém me está a pedir dinheiro.

Portanto, essa dívida de 400 milhões de euros não existe?
Haver uma dívida é uma coisa. Não vou declarar quanto é, se é isso, ou mais, ou menos. Agora, a informação está errada. O que aconteceu foi que o BBVA dizia que eu tinha uma dívida de parte de três milhões de euros, há cerca de 12 anos, quando houve uma companhia da bolsa que foi vendida ao BBVA. Nessa altura, eles fizeram uma fatura incorreta pelos serviços que nos prestaram para melhorar o balanço deles. Eu não estava a par disso. Uma vez veio uma fatura dessas, alguém me veio perguntar e eu disse que não tínhamos essa dívida e mandámos a fatura para trás há 12 anos. Então a coisa andou até que, recentemente, fomos notificados de que tínhamos uma divida de três milhões, nem fui a tribunal. Eu não percebo bem como é que isto acontece hoje em dia. Penhoraram-me dois quadros e vamos a tribunal e ver o que é que se passa.

Então, as tais notícias que davam conta da penhora de automóveis…
Está resolvido, foi o que eu disse. É uma injustiça. Já tínhamos dado uma garantia e agora temos de ir para tribunal e defendermo-nos. Eu não estou a dever o dinheiro. Quando eu estou a dever dinheiro, eu pago.

Mas notícias referem que está totalmente endividado.
Totalmente endividado?! O que quer dizer isso? Se ler tudo, a revista diz que o tribunal diz que já está resolvido.

Além do BBVA, também outros bancos credores podem avançar para processos de penhora?
Como é que eles podem avançar se está tudo resolvido? Só se não houver cumprimento e até agora..

Mas, segundo o BBVA, citado pelo Correio da Manhã, o senhor está “totalmente endividado, estando o seu património, pelo menos o que até agora se conhece, totalmente onerado”. É verdade?
Eu não vou discutir essas coisas que não são verdade.

Não é verdade que está totalmente endividado?
Temos garantias, como toda a gente. Hoje em dia, no Banco de Portugal, quem tem crédito tem que dar garantias. Quando inicialmente fizemos alguns dos empréstimos, só tínhamos as ações como garantia, foi o que foi acordado. Mas como eu já fui administrador de um banco, sei que as coisas mudam e então eles disseram para arranjar mais garantias, embora não isso estivesse no acordo inicial. Como sei que tenho de respeitar as coisas e não fugir dos problemas – podia dizer que não dava mais garantias e pronto, eles não podiam fazer nada – dei mais garantias. E estou contente por isso.

Então a sua relação com os bancos está normalizada desde que reforçou as garantias tal e qual os bancos pediram?
Sempre estiveram normalizadas. Estivemos foi em negociações.

E já terminaram essas negociações?
Por enquanto, sim.

Quando?
Já foi há tanto tempo.

E recentemente não houve qualquer pedido de reforço?
A única coisa que houve foi o BBVA.

Então as noticias sobre a sua falência são manifestamente exageradas?
Não vou estar a discutir coisas que não existem. Já ando nisto há tantos anos. Ainda há pouco tempo disse que o emigrante que venha para Portugal fazer coisas tem de trazer duas fortunas: uma para ficar e outra para especular. E essa da especulação foi complicada e temos muito que aprender.

Mas a verdade é que com a crise o seu património desvalorizou bastante. A participação que tem no BCP já não vale hoje o mesmo, o seu património imobiliário também não.
Sem dúvida. Mas tenho outros que estão bem valorizados.

Qual é a sua verdadeira situação financeira?
Muito boa.

Continua um homem rico?
Não digo um homem rico, mas um rico homem. Não sei qual é a diferença, mas pronto. [risos]

Não foi forçado a vender ativos para pagar as suas dívidas?
Por enquanto, não.

Nem teme que isso possa vir a acontecer?
Não vou discutir um problema que não existe agora, quando chegar a altura dessa situação, vamos ver.

Mas prevê que essa altura possa, de facto, chegar?
Não sei. É como Portugal com as dividas que tem, o que é que vai acontecer se não puder pagar? Vamos negociar nessa altura. Quando chegar a altura de pagamentos, se você não pagar, vai negociar.

Está a aproximar-se o momento-chave para essas negociações?
Não.

Neste verão acompanhou o aumento de capital do BCP e reforçou a sua participação. Para quanto?
Não tenho aqui comigo. Não vou especular.

Mas é uma participação qualificada inferior a 5%?
É uma participação qualificada.

Esse investimento é para manter?
De momento, o que é que eu posso fazer? Vou tentar manter.

Para não perder dinheiro, é isso?
Não, a pessoa só perde quando vende. Há poucos meses foi o aumento de capital. Eu não pedi dinheiro a ninguém para ir ao aumento de capital.

Como é que fez face a este investimento no BCP?
Comprando.

Mas com que dinheiro?
Com o meu.

Não foi dinheiro que resultou da venda de 32% da Sogrape?
É o meu dinheiro. Mesmo que não tivesse vendido a minha posição na Sogrape.

Não teve que se endividar?
Não.

E qual é a sua opinião sobre a atual gestão do BCP, liderada por Nuno Amado?
Infelizmente, seja qual for o presidente do conselho de administração, o sector financeiro está em dificuldades.

Confia na gestão de Nuno Amado?
As coisas estão tão difíceis. Ele já dirigiu um banco e teve fantásticos resultados. Não há razão para ele não continuar até que a situação financeira internacional melhore.

Arrepende-se do seu envolvimento na guerra do BCP?
Não vale a pena pensar em “se”. Arrependimento não tenho. Quando começou a guerra do BCP, um dos grandes desgostos que tive na minha vida – tinha uma grande amizade e consideração pelo Jardim Gonçalves, que também é da Madeira -, fiquei muito triste. É uma pena que os juízes não tenham as leis suficientes para andarem mais rápido. Quando houve esse princípio, eu podia ter saído. Na guerra que começámos na assembleia geral, fizeram-me uma oferta através da qual faria muito dinheiro se tivesse saído. E tive uma reunião com o conselho de administração, o meu filho e um advogado, e o meu filho disse assim: “Não há ninguém que compre a nossa dignidade. Nós sabemos que vamos para uma batalha dura, mas isto tem que ser esclarecido”.

Gastou muito dinheiro à conta dessa batalha dura.
É verdade, mas também o dinheiro para que é que serve? Se não se vai à procura também de justiça… Tenho estado envolvido na briga pró-minoritários há muitos anos. E continuo a brigar porque acho que em Portugal, os minoritário não têm voz ativa. Os acionistas têm de ser tratados devidamente.

Falou dessa amizade com Jardim Gonçalves. O fundador do BCP moveu-lhe um processo por difamação.
E ganhei.

Acabou por ser absolvido.
Eu ganhei! Ele estava errado. Eu não estou arrependido. Eu tentei fazer a coisa certas mas as pessoas não entenderam. Um ladrão é um ladrão.

Acusou Jardim Gonçalves de várias coisas, entre elas de fazer aldrabice.
E é verdade.

É recorrente o cenário de fusões e aquisições na banca portuguesa. Nesta altura, dadas as circunstâncias atuais, quando há bancos, como o BCP de que é acionista, que tiveram de pedir dinheiro ao Estado para atingir os requisitos de capital exigidos pela autoridade bancária europeia, este é um cenário a ser considerado?
A ajuda que está a ser dada a todas as instituições financeiras é uma nacionalização indireta. Só não foi feita uma nacionalização porque se o Governo fizesse agora uma nacionalização seria mau para a contas públicas. Esta ajuda que está ser dada é uma nacionalização.

Mas uma fusão entre o BCP e o BPI é possível?
Com as condições da troika e do Banco de Portugal eles estão com a mãos amarradas. Só com o seu consentimento. Nem o conselho de administração, nem os acionistas têm o poder para isso.

A atividade de especulação da bolsa é aquela que reserva exclusivamente para si e para o seu filho. No meio desta crise, continua a ter a mesma sorte e a encontrar boas oportunidades para especular?
Não tantas. Primeiro, o que é a especulação? Não é comprar uma ação e pôr lá o dinheiro e depois vender com ganho ou prejuízo. Uma especulação é comprar ou vender coisas que não existem, como “futures”. Há pouco tempo, Hugo Chávez disse que tinha 900 toneladas de ouro. O que ele tinha comprado eram 900 toneladas de “futures”. Isso é que é especulação. Nas moedas, no trigo, no milho, que é tudo controlado pela Goldman Sachs. Não há maneira deste mundo melhorar até que esse problema seja resolvido.

Qual problema?
A especulação através de “futures”, das matérias primas. Há poucas pessoas que conhecem esse problema mas é o problema mais grave da humanidade. Considero que é o maior roubo da humanidade. A especulação em futuros são triliões de dólares “that they trade every day”.

Tem apostado em quê na bolsa?
Não vou discutir os meus negócios. Tenho feito, não tanto como antigamente, mas há sempre opção. Agora, eu nunca quis vender o que eu não tinha, acho que isso devia ser expressamente proibido, tanto na subida como na descida, temos de ir para os valores antigos, comprar e vender.

Falou da importância dos acionistas minoritários. A CMVM, o regulador do mercado de capitais, não tem feito o suficiente na defesa dos interesses dos pequenos acionistas?
A CMVM e o Banco de Portugal só podem actuar pelas leis que têm. O juiz só pode ir de acordo com as leis que tem.

É o quadro legal que está incompleto.
Exatamente e ninguém vê isso. Tenho soluções para meter Portugal entre os melhores da Europa e este é o momento ideal, mas não há coragem.

Mas que soluções são essas?
Temos é de fazer leis como Londres, para trazer as pessoas com dinheiro para Portugal, Mas para isso temos de arranjar melhor cultura, temos de arranjar hotéis melhores.

Mas a mais valia de Londres é que é uma praça financeira muito forte.
Porque as pessoas têm o direito de viver lá por seis meses e todo o dinheiro que seja feito fora de Inglaterra chega lá e não paga impostos. Temos de aprender com quem sabe. Por exemplo, a zona franca da Madeira acabou. Mas acha que as pessoas dos off shores acabaram? Não! Acho que a CGD foi para as Bahamas, os outros bancos para aqui e para acolá. Portanto, matámos a possibilidade de ter a galinha dos ovos de ouro.

Falou com governos anteriores das suas propostas. E com este governo já tentou?
Não consigo. Não consigo obter resposta. Tenho a fábrica do tabaco e com as alterações à fiscalidade do tabaco de enrolar, só na Madeira, perdemos com isso 35%. Isso significa fiscalmente uma perda, só para a zona da Madeira, de cinco milhões de euros. Escrevi ao ministro das Finanças e não tive resposta. E a zona da Madeira vai perder as vantagens que tinha com o preço do tabaco.

Não teve qualquer contacto com este Governo, apesar das tentativas que fez?
Escrevi ao primeiro-ministro umas oitos cartas e ele nunca respondeu.
Numa altura, escrevi ao presidente da América e ele deu-me resposta. No tempo do Nixon, ainda eu estava na África do Sul.

Porque é que acha que Passos Coelho não lhe respondeu?
Anda muto ocupado. Tem a mão cheia de trabalho. Na África do Sul, um pais muito maior, fui um dos 21 apontados como advisor. Mas este Governo talvez não precise, para quê tantas pessoas a dar opiniões? Eles têm tido conferências e têm-me convidado para ir a conferências, mas para ir ouvir a conferência, o que já está feito, o que eles querem dizer, não vale a pena perder tempo, nem vou. Agora, se eles quiserem que dê a minha opinião, como acho que se devia atingir um objetivo relativamente fácil, para melhorar a vida dos portugueses, comose diz em inglês, you take the bull by the hornes. Não é só reduzir e reduzir. O que é que se vai fazer no futuro aqui em Portugal? O que será o futuro dos seus filhos, dos meus netos? Eu não posso continuar aqui nesta situação. Eu vim para aqui com o sonho do mercado comum, e realmente foi verdade, agora estragámos a nossa produtividade.

Mas pondera a possibilidade de abandonar o país, de deslocalizar alguns investimentos?
Isso não há duvida. Então o que é que se pode fazer? Vou esperar até ao próximo ano para ver este novo orçamento, mas vou ter de decidir. O conselho que o Governo dá é para emigrarmos. Tive na Fundação mais de 20 mil bolsas de estudo e mais de 52% dos bolseiros já não estão em Portugal. Então para que é que gastei dinheiro a apoiar as pessoas para melhorar a situação de Portugal. Tive a gastar o meu dinheirinho e agora vai para países com melhor rentabilidade que os nosso. Acho que isso uma pena.

É capaz de seguir o caminho dessas pessoas?
Eu acho que sim. Eu tenho que ver o futuro dos meus netos. Este Governo está a perseguir as pessoas do dinheiro. É um pecado mortal a pessoa ser rica. Não é ajudar os pobres a serem ricos, aqui é os ricos que devem ficar pobres.

Mas pelo mundo fora têm sido várias as vozes a defender o aumento de impostos para os mais ricos. Está disponível para pagar mais impostos em Portugal?
Eu estou a pagar e se estou aqui tenho que ajudar. Mas não concordo com a maneira com eles fazem. Isto nem 8 nem 80.

Mas estaria disponível para pagar mais impostos?
Por mim não é importante mais um pouco, menos um pouco. Eu não sou “the average”. Estou preocupado é com o futuro dos homens de negócios deste país, que vão levar os negócios para outro lugar.

É conhecida a sua paixão pelo Benfica. Em 2007, chegou até a lançar uma OPA para controlar a SAD do clube.
Não. Foi para uma percentagem de 30%. Nunca quis controlar o Benfica. Não tenho adaptação para ser presidente de um clube. Aquilo é uma escravatura.

Não sonha vir a ser presidente do Benfica um dia?
Nunca.

Está satisfeito com o que viu esta época no seu clube?
Felizmente, estamos chegando a um objetivo de futebol muito bom e muito bonito.

Jorge Jesus deve continuar?
Ainda há poucos dias disse que o bom treinador é aquele que ganha. E ele tem ganho.

Vamos falar da sua coleção de arte moderna, que está avaliada, pelos últimos números da Christie’s, em mais de 300 milhões de euros e é elogiada por críticos de todo o mundo. Há poucas semanas, soube-se do interesse de um empresário nova-iorquino com ligações à Rússia que terá contactado o Governo português para comprar todo o acervo. Na altura disse que desconhecia o valor da proposta. Já o conhece?
Não. Já pedi ao Governo para me dar uma cópia dessa carta que mandaram para os bancos e não mandaram para mim.

Mandaram aos bancos que têm a coleção como garantia?
Não é bem assim. Eles mandaram para os bancos também a informar que estava a fazer uma exposição em Miami, a dar a entender que eu estava a fugir com a coleção. O que acontece é muito simples: o Governo tem uma opção de comprar a coleção Berardo por 300 milhões de euros por um período de 10 anos. Tenho tido visitas que avaliam a coleção por mil milhões de euros. E alguém pensou: “vamos fazer a oferta ao Governo”, o Governo exerce a opção e leva-se a coleção por esse valor.

O Governo tem a opção mas a coleção é sua?
Sim, mas eles podem exercer a opção a qualquer momento. Mas eu ando nisto há muito tempo e a opção só é válida para a coleção ficar toda em Portugal. Sem a minha autorização eles não podem vender se não for para a coleção ficar em Portugal.

Esse acordo tem um prazo de validade que acaba em 2016. Mesmo depois do final do acordo mantém-se a obrigatoriedade da coleção ficar em Portugal?
Claro. Só com a minha autorização ou da minha descendência, se me acontecer alguma coisa, é que os estatutos podem ser mudados.

E estaria disponível para alterar os estatutos?
Não vou falar de uma coisa que de momento é válida até 2016. Tanta gente que me tem vindo falar, mas até 2016 tenho que cumprir a minha palavra.
Se o Governo quiser exercer a opção, que não tem dinheiro para isso, vai ter que deixar também a coleção em Portugal.

E tem vontade para renovar esse acordo ou estender o prazo?
Está no acordo que tempos antes do acordo acabar vamos ter que ver qual é o futuro da coleção. Imagine que me dizem: “Queremos ficar mas não temos dinheiro para comprar”. Ok, quantos anos querem mais? É negociável.
Para mim até 2016 está fechado, estamos em 2012. O Governo pode mudar até lá. Não vou perder tempo na minha cabeça.

A sua coleção está à venda ou não?
Não. Não pode. Tenho tido pessoas que vieram de Israel, de Inglaterra, de Nova Iorque, da Rússia, mas a minha coleção não está à venda. Porque eu não quero também. Isto é parte da minha vida! Eu estou a colecionar desde os 10 anos, nunca vendi uma caixa de fósforos ou um postal. Tenho tudo ainda comigo, tenho mais de 40 mil peças, tenho quatro museus abertos ao público por minha conta.

Em relação a este episódio da carta que foi dirigida ao Governo e não a si. Disse na altura publicamente que tinha ficado incomodado. O Governo já falou consigo?
Eu fiquei admirado que alguém receba essas propostas e o Governo nunca tenha falado comigo. Entretanto, já falei com o secretário de Estado da Cultura que me disseram que me iam dar uma cópia dessa carta. Mas ainda não deram. Não interessa, já sei a carta de cor.

E com o empresário que fez a proposta, já falou?
Não falei nem vou falar. Não estou interessado.

Olhando para a sua terra, para a Madeira. Como vê a liderança de Alberto João Jardim. Ele deve continuar?
O Alberto João Jardim ainda é um ano mais velho do que eu. Ele teve um papel muito importante no meu regresso a Portugal, mas eu acho que não pode continuar, tem que haver sangue novo. O tempo de dirigir a Madeira como no passado, com bocas, isso já passou. Acho que ele devia sair pela porta da frente e os madeirenses agradecerem pelo trabalho que ele tem feito.