Cheiro a férias

E agora vou ali num instante de férias. Isto tem sido como quando estamos cheios de vontadinha para fazer xixi e os últimos metros até à casa de banho são um suplício. Tenho (temos!) andado num estado de enorme sofrimento, desejosos das próximas duas semanas. Contando com dias inúteis são 17 dias inteirinhos de sol, piscina, de família, de tempo para tudo o que nos apetecer.

E como em tudo o que cheira a festa, o prazer começa logo com os preparativos, com o antecipar de sensações. Não faço malas, enfio meia dúzia de tshirts, biquínis, calções de ganga e havaianas (uns jeans para alguma eventualidade), mas tenho imenso cuidado na escolha do gel de banho, do creme para o corpo, do óleo para o cabelo… As minhas férias já cheiram. ❤

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Insensíveis, favor não ler

Aqui estou eu, mais uma vez, farmacêutica de serviço desta espectacular Farmácia. E desculpem se estou insuportável.

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Estou com um problema. Um daqueles problemas que sempre me disseram ser um erro que as pessoas maduras, independentes e inteligentes, como eu, jamais cometem. Não fazemos nada um sem o outro. Ou antes, não fazemos quase nada um sem o outro. Melhor ainda, fazemos algumas coisas um sem o outro, mas ficamos com aquela sensação estranha e muito pirosa de que nos falta alguma coisa.

Podem começar a vomitar, mas chegam a acontecer coisas tão ridículas, como o envio de vídeos do concerto para o que não foi.

Sempre me contaram que a convivência extrema é um comportamento a evitar, que passar muito tempo com a mesma pessoa, sem sair com amigos, sem visitar a mãe e a irmã sozinha torna o relacionamento chato. Porque depois ele passa a ser o único alvo das minhas reclamações, observações e objetivos, e vice versa. E garantiram-me, e eu quase acreditei, que isso acaba com qualquer espécie de amor.

Aqui estou eu, especialista em fins, para refutar esta teoria milenar. Aquilo que me fez, há uns tempos, telefonar à minha melhor amiga para me desencantar um voo Nova Iorque-Lisboa para a próxima hora, quando ainda faltavam 10 dias para o fim das férias, foi uma vontade incontrolável de me afastar, de estar com os amigos, a mãe, a irmã e a gata. Quando cheguei a casa, as janelas estavam todas escancaradas, como se me quisessem dizer ainda bem que voltaste.

Ainda hoje me espanto com esta brutal desafeição, que só se tornou clara num acordar nova-iorquino.Da mesma forma que, hoje, me assusto com a nossa interdependência. São gigantes as diferenças, mas nenhuma, garanto-vos, se aproxima dos habituais argumentos que sustentam a tese da importância das separações , como o tempo e o espaço, ou a falta de ambos.

É uma coisa mais simples, é o sentimento que me faz diferente. Podem expelir tudo o que ainda vos resta no estômago, mas ninguém será capaz de me convencer que não é o amor – e a coragem – a única razão que me faz querer, hoje, partilhar a minha vida, quase ao minuto.

A registar apenas o persistente boicote aos meus planos de um dia conseguir correr a ultramaratona, mesmo assim sempre compensados pela descoberta de maravilhosos spots para corridas mais curtas. Entretanto, já tenho bilhete para ir ver Clã com as minhas amigas do coração. Lá está, é como vos digo, sempre tudo uma questão de afetos.

Matemática pura

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Hoje, sou a farmacêutica de serviço n’A Farmácia de Serviço, um dos blogs mais fixes ❤

Meti Nouvelle Vague para escrever este texto, um texto que não é bonito e que só é possível ser escrito alguns tempos depois de tudo começar, depois de sossegar o medo.

Há alguns meses, senti, pela primeira vez, um medo feio, mas verdadeiro, de envelhecer. Não foi quando fiz 30 anos, nem 40, foi quando percebi que me preparava para casar com um homem mais novo do que eu — 4.740 dias, mais precisamente.

Quando soube, já era tarde demais, mas pouco importa, porque, mesmo que tivesse sabido com toda a antecedência, nada seria diferente. Mas não me saía da cabeça uma conta simples: quando ele tiver 45 anos, eu já estarei a caminho dos 60 anos. E mais tarde, um dia, eu morrerei, provavelmente, mais cedo.

Todos nós já vimos, nem que seja nos filmes, histórias destas, e já todos ouvimos aquele blá blá blá do “amor não escolhe idades”, mas, garanto-vos que, quando é connosco, a coisa é um pouco mais aborrecida.

Não era o que os outros poderiam pensar que me chateava, porque, felizmente, sempre me borrifei para muitas convenções; também não era por insegurança, porque não é difícil perceber porque é que o meu marido se apaixonou por mim ;). Era só por causa destas malditas contas à vida.

Cheguei a chorar, nos momentos mais incríveis, com medo que a felicidade, um dia, acabasse. Um dia, achei que era mais justo (ganhei coragem) e contei-lhe. Não sei bem porquê, porque já antecipava a reação. Há lá maneira mais cor-de-rosa de ver o mundo do que a dos apaixonados?!

Foi a minha sogra, sem saber, que sossegou o meu medo. Com a sua naturalidade, quando nos disse que o que mais importava era que estivessemos felizes, e com a história da sua própria vida. A Laura — sim, eu trato por tu a minha sogra — ficou viúva, com dois filhos, aos 30 anos. Um cancro raro e fatal roubou-lhe a felicidade, em poucos meses.

Por aqui, e porque a idade traz outras coisas, continua a viver-se um grande amor, daqueles “para sempre”, ainda que com irritações pontuais à conta das primeiras rugas, que começam a misturar-se com a minha felicidade.

Sim, ama-se alguém que não ouve a mesma canção

FotoLuadeMel

Hoje sou a Farmacêutica de Serviço nesta milagrosa Farmácia

Nem tudo é um mar de rosas, nisto do casamento (a lua de mel foi mesmo uma delícia, obrigada, como podem ver pela fotografia em cima). Já tivemos um ou dois stresses, admito. Além da inabilidade do meu marido para fazer arroz (a única), que já provocou um diferendo e a promessa, dele, de nunca mais se dedicar ao dito, a grande controvérsia entre nós é a música. Para ele, o meu som é quase todo “muito down”, para mim, aquilo que ele ouve é sempre “panados com pão”, não sei se me faço entender?!

Na festa de casamento, só houve música porque o DJ já fazia parte da lista dos convidados – do meu lado – e porque, é um facto, o bolo dos noivos já tinha sido entregue ao amigo do meu marido, o querido patisseur Luís. E por casa, ganham os meus 124 iPods, espalhados por todo o lado, a minha pré-adolescente viciada em hits e, há que dizê-lo, a tolerância dele para com o meu som e para com a minha grave inaptidão para a eletrónica.

Não temos uma música da nossa vida (ainda!), nem uma playlist da nossa existência. É claro que os nossos corações batem por algumas bandas, como esta, por exemplo, mas não, não somos do género de casal que se conhece, apaixona-se e decide casar-se também porque ouve as mesmas músicas e vê os mesmos filmes.

Cheguei a pensar nisso, mal constatei as diferenças, mas se rápido pensei, mais rápido deixei de pensar. Por todas as razões amorosas e apaixonadas, que evito aqui escrever para não vos saturar, pelas vantagens evidentes de quem passa a receber novas referências musicais, e não só, mas sobretudo, porque percebi, entretanto, que mais importante do que partilhar a vida com alguém que lê os mesmos livros, é fazê-lo com alguém que sente da mesma maneira.

Lamento contrariar Carlos Tê e Rui Veloso, mas sim, ama-se alguém que não ouve a mesma canção.

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Emoções

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Fotografia de Pedro Azevedo

Ainda sobre o casamento, a lua-de-mel e tudo isto, uma sensação meio estúpida, entre a vontade ilimitada de partilhar a felicidade e o embaraço de vos poder saturar. Nesta enxurrada de lugares-comuns, a certeza de que um dia é manifestamente insuficiente. Os ciganos é que a sabem toda.

Eu sabia que devia ter escrito os votos, e não bastou ter pensado em cada um de vocês, devia ter tirado notas, porque depois, no meio daquela emoção toda, não disse tudo o que sentia. Mas há uma coisa que me conforta, abracei-vos a todos do fundo do coração.

Entretanto, o meu mundo continua por aí a emocionar-me. A minha mana-madrinha Catarina, que escreveu sobre o casamento, aqui, publicou o seu primeiro livro. Parece light, mas não é. Como disse o Paulo Farinha no lançamento, trata-se de escrever muito bem sobre emoções.

Lancamento Livro  (3)

LançamentoCat

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Até que a morte nos separe

Este texto foi escrito para a inauguração de um blog novinho em folha, do querido Paulo Farinha, que me deixou muito contente quando me convidou para lá escrever. Agora, não há volta a dar, aqui estou eu, na primeira pessoa, sobre mim, num registo muito pessoal. Espero (tenho a certeza) que gostem da Farmácia de Serviço. E eu vou casar ❤

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Há os que esperam pelos 40 para surfar, andar de patins em linha, fazer maratonas ou saltar de pára-quedas, eu esperei pela ternura da idade para fazer tudo isso e ainda para casar. Vou casar pela primeira e última vez, e entre conhecê-lo e decidirmos casar não chegou a um mês. Na verdade, fiz uma revolução na minha vida, movida apenas pela intuição – a minha é poderosa! – de que é amor.

Em tão pouco tempo, desmontei a minha vida toda, a de mãe, filha e gata num apartamento com espaço para escritório e vista de rio. Em menos de um mês, decisões sobre coisas tão prosaicas como o que fazer depois de me levantar ao sábado de manhã, ou que marca de iogurtes comprar passaram a ser partilhadas, o escritório com a minha secretária estrategicamente posicionada para apanhar a tal vista foi transformado em quarto – a minha filha ganhou um irmão – e a gata Pimenta foi carinhosamente despejada para o vão da nossa escada.

Logo eu, que passei anos a fio a disputar o meu lugar, e a ganhá-lo, em todo o lado, até em casa, abro agora as portas do meu coração, sem guarda nenhuma, a um estranho, que, pensando bem, nem sei se saberá nadar. Hoje, a verdade é que não disputo grande coisa, em lado nenhum. Para já, garanti o cargo de mulher mais feliz do mundo e o melhor spot no sofá lá de casa.

Se alguma vez me dissessem que, um dia, iria querer casar de papel passado, usar aliança com o seu nome gravado, (tremo só de pensar que a posso perder), que iria querer ter os amigos à nossa volta, usar um vestido especial, que iria pensar sem parar nos meus votos de casamento, ou que admitiria (muito remotamente) as fraldas e os biberões na minha rotina de mulher madura, entre outras coisas que é melhor nem falar, eu juro que desataria à gargalhada.

Dias antes de conhecer o meu futuro marido, dizia à boca cheia que depois destes anos todos, das minhas relações, uma delas verdadeiramente longa, não queria voltar a viver com mais nenhum homem: “Cada um em sua casa. Já tenho os meus dias todos montados com a miúda, era o que faltava ter que voltar a debater com outra pessoa o destino das próximas férias”.

À minha personalidade, que tinha tanto de adorável como de insuportável e que faz de mim uma mulher de um magnetismo impressionante, acrescia um outro problema. Eu não pareço a idade que tenho e só gosto de homens com tatuagens. E convenhamos, homens da minha idade e tatuados não existem para aí aos pontapés. Não, não vou casar com um menor de idade, mas também neste caso, engoli o que fiz durante meia vida e preparo-me para casar com um homem mais novo.

E é mais ou menos isto, venho aqui dizer que me preparo para fazer tudo o que disse que nunca faria, a começar pelo casamento, que estou muito feliz, e que grande parte do mérito disto tudo é, justiça seja feita, do noivo, porque é fácil de ver que não é qualquer um o homem capaz de ficar ao meu lado, até que a morte nos separe. ❤