“A classe média acabou por ser aquela que menos sofreu”

Jorge Braga Macedo

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel (TSF)
Fotografia de Natacha Cardoso/Global Imagens

Jorge Braga de Macedo foi ministro das Finanças, no início dos anos 90, na segunda maioria absoluta de Cavaco Silva. Hoje, está afastado da política ativa e concentra-se na sua principal atividade: é professor de economia na Nova School of Business and Economics.

Hoje, o país assinala o fim simbólico do resgate. Qual é o balanço que faz destes três anos? Os sacrifícios serviram para alguma coisa, ou será que foram um conjunto de medidas avulsas para cumprir metas?
Simbólico é palavra-chave, porque é um dia igual ao anterior e muitas coisas ficarão iguais no dia seguinte. Agora, não há dúvida que passou um marco e os marcos são o que nos permite viver, são momentos. Há pontos focais, momentos em que a pessoa diz “isto aconteceu naquele dia à tarde”. Isto foi uma espécie de entrega. Houve o acordo, houve um contrato – os antigos diziam que os contratos têm que ser cumpridos – e o nosso país, todo ele, cumpriu. Burocraticamente, a data nem é esta, porque são instituições complexas, há uma série de detalhes, mas por razões simbólicas concentrou-se neste dia. O que é que um economista vai dizer? Os símbolos são importantes mas, enquanto símbolos, não são importantes nos bolsos das pessoas. Por mais notícias boas que surjam hoje, ou por mais notícias más que surjam hoje. E há das duas. O dia de hoje, o dia de amanhã e o dia de ontem não são muito diferentes, nem podem ser. É essa a dificuldade que se tem em passar realidades económicas, algumas delas instantâneas, que mudam em centésimos de segundo, e que podem fazer imensa diferença na vida das pessoas Mas a realidade é muito mais viscosa, muito mais lenta. O símbolo sim, é muito importante, mas não é mais do que isso.

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Não façam nada

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Não vale desvalorizar. É verdade que um trimestre não faz o ano, também é verdade que existem fatores irrepetíveis, como a paragem da refinaria de Sines, mas a realidade é dura: no primeiro trimestre deste ano, a economia interrompeu um ciclo de crescimento e caiu 0,7% em relação aos últimos três meses de 2013. Em termos homólogos, verificou-se um crescimento – 1,2% -, mas o que seria se assim não fosse? Alguém se esqueceu de como deixámos 2012?

Podemos desvalorizar, valorizar o caminho e apagar o resultado destes primeiros três meses do ano, dizer que depois de um quarto trimestre de 2013 tão generoso seria difícil repetir a proeza, podemos destacar o comportamento do consumo interno, que segurou, para o bem e para o mal, os (maus) resultados deste início do ano, podemos dizer muita coisa, mas não estamos a ser honestos e consequentes.

Vamos esperar pelos resultados do próximo trimestre, que permitirão definir com maior segurança uma tendência, mas a verdade – indesmentível – é que a recuperação da economia é frágil, tão frágil que assusta. Surpreendente seria o contrário.

As empresas não têm como continuar a aumentar as exportações, porque não investem, os bancos continuam atolados em malparado e, por isso, incapazes de assegurar o financiamento de que a economia necessitaria, e as famílias estão, mais uma vez, com a espada dos impostos sobre a cabeça (quem sabe qual será o comportamento do consumo até ao final do ano…).

Isto e muito mais resulta na sensação terrível de que o país não sai do mesmo lugar, que remamos todos, uns mais do que outros, com cada vez mais esforço, para não sair do mesmíssimo lugar.

No final, é isto que conta: entre janeiro e março, a economia caiu 0,7% face ao período de outubro a dezembro de 2013, quando as expectativas apontavam para um crescimento de 0,4% do PIB. E a responsabilidade deste resultado é, claro, do governo: do de Passos Coelho, que sossega os mercados, ao ameaçar com aumento de impostos, mas também do de Paulo Portas, que, inebriado pelas europeias de dia 25, só lhe falta prometer uma descida do IRS já para o mês que vem, logo a seguir às eleições.

Enquanto o governo não perceber que os mercados não são burros e que este sossego, que nos dá, agora, juros historicamente baixos, só durará até ao próximo (mínimo) deslize – que, indesejavelmente, irá acontecer -, enquanto este governo não perceber que de pouco serve cumprir as metas – estas metas -, assim!, porque se arrasa com o país, que são as pessoas, enquanto nada mudar, por aqui andaremos, num ramerrame sufocante. O país precisa de crescer mais e não vai lá assim, cada vez mais afundado em dívida. Com este governo e com estas políticas não há espaço para crescer.

Os números da economia referentes ao primeiro trimestre deste ano não são a carta que derruba o frágil castelo que é a política deste governo, são apenas mais um dado para cima da mesa de um país que não sabe como vai sobreviver a uma saída limpa.

Passos não é o nosso paizão

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Sílvia

O estado de emergência do país tem sido desculpa para muitas medidas, para o governo cometer muitos erros, esquecendo que os resultados rápidos não bastam para governar um país com eficiência.

Se Passos Coelho tivesse lido Henry Hazlitt e a sua Economics in One Lesson – uma introdução à economia de mercado, afinal, a economia do nosso primeiro-ministro – teria ficado a saber que há uma regra básica: a arte da economia consiste em olhar não apenas para o imediato, mas para os efeitos mais longínquos de qualquer ato ou política.

Só esta distração justifica que o governo continue a atirar certas medidas para cima de todos nós. Isso e a urgência de fazer receita, de encaixar dinheiro, rapidamente, que ajude a tapar o enorme buraco que é a dívida pública.

Ao longo desta semana, foi avançada a hipótese de ser lançado, em Portugal, o chamado imposto das batatas fritas, ou seja, um imposto sobre produtos com elevadas taxas de gordura, sal ou açúcar.

Este imposto, que existe em alguns países – há uns anos, em Nova Iorque, proibiu-se a utilização dos tickets de refeição para comprar bebidas açucaradas -, trará receitas fiscais imediatas, ajudará a suportar o défice da Saúde, mas traduz também um Estado paternalista, faz de Passos Coelho um verdadeiro paizão.

Uma situação no mínimo bizarra, já que o primeiro-ministro passaria a ser, por um lado, o político liberal que quer reformar o Estado e a Saúde em Portugal e, por outro, o político paternal, que se compromete – sem poder cumprir – a cuidar da nossa saúde, da nossa alimentação e, quem sabe o que virá a seguir, da vida de todos os cidadãos.

Esta situação poderá gerar, inclusive, alguma confusão sobre quem é o verdadeiro Passos Coelho. Se o político liberal e frio, financeiro, empenhado em endireitar as contas do país, se o pai de família, que se dedica de corpo e alma aos seus semelhantes.

Volto ao início e à importância de pensar para além dos efeitos imediatos de qualquer medida. E insisto no perigo do Estado paternalista, pois recuar é, nestes casos, muito mais difícil.

O melhor é o que aí vem

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

O governo sabe que não causou alívio ao anunciar que não pretende efetuar novos cortes nos salários e pensões. No fundo, já todos sabíamos que não iríamos voltar a ser chamados para suportar, de forma direta, mais um esforço de redução do défice. Há algum tempo que sabemos que não há espaço para mais austeridade em cima de toda a austeridade imposta nos últimos três anos.

Mais uma vez, o governo chegou carregado de más notícias. Nesta semana, ficámos a saber, agora com mais certezas, que muito dificilmente voltaremos aos níveis de rendimento de 2010 e que alguns cortes serão transformados em novos cortes, inferiores, mas permanentes. Más notícias, sob a forma de aviso, já que o detalhe ficou para mais tarde. Nada de novo. Passos Coelho não surpreende porque não sabe, nem quer fazer diferente.

Seria este mais um momento, aproveitando a retoma da economia, para o governo tentar melhorar um pouco a vida de quem trabalha e, quem sabe, melhorar a sua ideia sobre o futuro. A economia precisa de menos impostos sobre o trabalho, que restringem o emprego e a competitividade, e de mais estímulos – fiscais -, depois de uma contração abrupta do consumo.

O governo alegará que, à beira do fim de programa de resgate, este não é o momento para causar má impressão aos mercados e à troika. Dirá ainda que não tem margem orçamental para prescindir de receitas e, assim, reduzir a carga fiscal sobre as famílias.

Mas, no final, o que se sabe é que a política é feita de opções e o resto é conversa. Quem gere expectativas já deveria saber que “a melhor parte da nossa vida é passada a aguardar o que aí vem” (William Hazlitt).

Venham mais 70

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Agora que já está tudo mais calmo, que já lá vão os achincalhamentos aos 70 e ao seu manifesto a favor da reestruturação da dívida, é importantíssimo que se diga que Portugal é, de facto, o líder do preconceito.

Por mais esforço que faça para encontrar, a cada dia, um país diferente, o peso dos costumes acaba sempre por vir ao de cima. E sem surpresas: são sempre os mesmos, da mesma forma, a empoleirar-se para, com tanta soberba, tentar desfazer as coisas.

Em Portugal, não se discute, não se debate, aquilo que é verdadeiramente relevante é resolvido no conforto dos gabinetes, em segredo, para ninguém ouvir, é tudo feito à boca pequena.

Reestruturação da dívida?! Melhor nem falar alto sobre o assunto, melhor que ninguém ouça, até porque ninguém sabe muito bem o que é e assim é muito melhor, ficam todos na mesma. Vivemos assim num país pequeno onde cantam sempre os mesmos. Os mesmos que ainda por cima não sabem ler, confundem, desinformam e cospem preconceito, talvez porque não sabem do que falam, nem o que dizem.

Em Portugal, confundem-se os papéis e reconhecem-se os papistas ao longe. É natural que Passos Coelho, primeiro-ministro deste país, se descole deste manifesto, era expectável que não viesse, agora, perante este movimento, desdizer-se e fazer tábua rasa a tudo o que defendeu em quase 1000 dias de governo. É a ele, conforme se viu pela evolução das yields da dívida pública, que os investidores escutam. Não, desenganem-se, os juros não continuaram a descer por falta de mérito do manifesto, mas porque, provavelmente, os mercados estiveram atentos à reação de Passos Coelho.

Também se entende, ainda que soe a despotismo, que Cavaco Silva tenha exonerado os seus dois assessores, por não ter sido informado previamente da participação de Vítor Martins e Sevinate Pinto no manifesto.

Agora, já é uma completa aberração ver gente insultar os que decidiram, a bem do país, promover uma discussão sobre o futuro. Basta ler o Manifesto (disponível aqui) para verificar que se trata de uma proposta razoável. Nenhum dos 70 subscritores do documento defende um perdão de dívida, ninguém propõe que o governo se faça de esquecido e deixe de pagar o que deve. Nenhum defende um Portugal caloteiro, como muitos tentaram, de forma pouco honesta, sugerir.

Aliás, a proposta deste grupo consiste no debate da reestruturação da dívida num contexto europeu: a reestruturação deve ocorrer no espaço institucional europeu, está lá escrito para quem quis ler. Está, portanto, claro que estes 70 estão longe de constituir um bando de irresponsáveis. O que estes 70 entenderam fazer, e bem, foi lançar a discussão, apresentar uma alternativa e, de forma bem moderada, sugerir outro caminho para um país enterrado em dívida, uma solução para um país que tem que crescer e criar emprego para poder continuar a honrar os seus compromissos.

Por mais que Maria Luís Albuquerque garanta que a dívida do país é sustentável – é seu dever fazê-lo -, está à vista de todos que com os níveis de crescimento previstos para a economia portuguesa jamais sairemos daqui. Isto se as previsões se confirmarem, porque em economia, como bem sabemos, as crises vão e voltam. Por mais que o governo insista na bondade do modelo de crescimento da economia portuguesa – faz parte que o diga -, é sabido – todos sabem – que uma nova reestruturação da dívida é inevitável. A discussão já começou.

Estou mais zangada com os portugueses do que com Tordo

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Quando achava que a polémica à volta da emigração para o Brasil de Fernando Tordo e da sua curta reforma já estava prestes a morrer, como acontece em Portugal com todas as polémicas que não nos levam a lado nenhum – este é um caso típico – o desabafo do vocalista dos Moonspell no seu blog, ou melhor a utilização que tem sido feita do seu texto, leva-me a querer escrever sobre o tema.

Porque, tal como Fernando Ribeiro, também eu estou zangada com os portugueses. Aliás, estou mais zangada com os portugueses do que com Fernando Tordo. O que se assistiu ao longo destes dias foi uma inútil troca de acusações, que, como já vem sendo hábito, nos afastaram do essencial.

De um lado, os que embirram com o músico, provavelmente porque, conforme lembra o vocalista dos Moonspell, Fernando Tordo tocou para partidos e assumiu publicamente, após o 25 de abril, a sua militância no PCP. Acusaram o músico português de uma tentativa de vitimização, de contratos milionários e de uma vida despreocupada e de regabofe, que agora, claro, se reflete numa reforma de miséria e numa inevitável ida para o Brasil para tentar manter uma vida de jeito.

Estes aproveitam ainda para a prática de uma moda relativamente recente, que consiste na exibição de um pensamento pseudo-alternativo de defesa dos poderes públicos. Por oposição aos que cascam a torto e a direito no Governo, reagem discriminado negativamente os cidadãos, atribuindo a estes a responsabilidade e culpa por tudo o que lhes acontece nesta vida.

Se Fernando Tordo não tem uma reforma digna é porque, obviamente, não fez os devidos descontos para a Segurança Social. Assim, sem mais nem menos. Estamos cada vez mais ideológicos, como é bom de ver.

Do outro lado desta discussão estão os que atacam o governo, mesmo que não saibam muito bem porquê, os que atacam os que criticam Tordo, fazendo do músico uma bandeira da esquerda contra as políticas liberais de Passos Coelho.

Tristes lados, que se entretêm assim, esquecendo-se do que importa e que não se resolve com a defesa do indefensável, nem com a persistente desconfiança em relação ao vizinho do lado.

Nem este governo é o direto responsável pelo valor da pensão de Fernando Tordo, nem tão pouco da sua decisão de abandonar o país. Nem os cidadãos podem exigir direitos, esquecendo as suas obrigações, como a de pagar impostos. Posto este pressuposto base, chegamos à real situação de quem é quase velho ou velho neste país. De quem é quase velho e ainda para mais foi, enquanto novo, artista e escolheu uma profissão precária. Neste país cheio de Mirós é sempre surpreendente o valor que se atribui à arte.

Mas esqueçamos então os artistas, que tanta alergia têm causado. Basta ter pais ou avós para perceber que o fim da vida, neste país, é tudo menos uma razão de debate, é, aliás, penosamente consensual.

E lamento, mas o que este governo fez até agora pelos que tentam escapar ao destino de Fernando Tordo foi exatamente o mesmo, senão pior, que fizeram todos os governos que têm governado o país. Valerá a pena falar dos cortes previstos no Orçamento do Estado Retificativo, que entrará em vigor brevemente, para quem tenha uma reforma superior a mil euros?! Ah, desculpem, mas como alguém disse: “A vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor”.

Pronto, e agora proponho que deixemos Fernando Tordo em paz e que nos concentremos no mais importante. No meu caso, desculpem-me o egoísmo, trata-se da miserável reforma dos meus.

Porque temos tanto medo da economia?

Lisboa - Pedro Passos Coelho na abertura da convenção empresarial - Sobreviver e Crescer

Fotografia do dia de Vítor Rios/Global Imagens

Texto publicado no Dinheiro Vivo

O pessimismo e a desconfiança dos portugueses preocupa seriamente o primeiro-ministro, que lançou, esta terça-feira, um apelo aos economistas e comentadores: atenção às “simplificações enganadoras”.

Passos Coelho considera que a recessão portuguesa foi exponenciada pelas expectativas negativas dos consumidores em relação ao futuro e teme os efeitos deste sentimento na recuperação económica mas, terá sido, de facto, o medo dos portugueses um factor de peso nesta crise, e se sim, de quem foi a responsabilidade por tanto pessimismo e desconfiança.

António Nogueira Leite, antigo secretário de Estado e ex-vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, Marcelo Rebelo de Sousa, professor de direito e comentador político, e António de Sousa, antigo governador do Banco de Portugal e antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos, concordaram com a importância das expectativas, mas devolveram algumas críticas.

Primeiro, os factos. Até agora, a realidade superou as previsões em dois indicadores: a taxa de poupança das famílias foi muito superior à esperada e o consumo privado encolheu mais do que o previsto. Este comportamento da procura doméstica contribuiu e muito para a queda do PIB, aumentando as dificuldades da economia portuguesa.

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, concorda com o primeiro-ministro e diz que este programa de ajustamento, ao contrário dos da década de 80, fica marcado pela “queda das expectativas”, que levou à quebra da procura doméstica. E Passos avisa: “A forma como nos envolvemos no debate público e, refiro-me também aos economistas, pode ser muito importante para não criar um choque de expectativas demasiado negativo que comprometeria injustamente e desproporcionadamente os méritos e o sucesso do programa que estamos a concluir”.

Perante isto, Marcelo Rebelo de Sousa, Nogueira Leite e António de Sousa admitem a importância das expectativas no andamento da economia, mas devolvem os avisos à troika e, sobretudo, ao Governo e ao primeiro-ministro.

“O que houve de baixa de expectativas tem a ver com as políticas e o discurso do Governo. Acresce que, ao longo destes três anos, o Governo, ao querer ele próprio elevar as expectativas, apresentou muitas previsões que não se verificaram. A diferença entre o que era vivido e o que era anunciado levou os portugueses a um processo de maior desconfiança”, defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Na opinião do professor, os portugueses levaram a sério o discurso do Governo de que o nível de vida iria e deveria descer e, por isso, decidiram aumentar a poupança e cortar no consumo.

Também Nogueira Leite responsabiliza o Governo e as instituições interancionais pela má gestão de expectativas, agora enunciada por Passos Coelho. “Admito que a comunicação de todas as instituições, nacionais e internacionais, das quais se destaca o Governo e o Banco de Portugal, não tenha sido a mais profissional e isso influenciou as expectativas dos consumidores”, sublinhou o ex-vice-presidente da CGD.

Segundo defende, o “bota-abaixismo” dos comentadores, bem como a comunicação social, também não ajudou, mas foi o Governo, “a falta de eficácia da comunicação do Governo”, a principal responsável pelas más expectativas em relação ao futuro da economia portuguesa.

Apesar de concordarem com a importância das exectativas na economia, estes dois responsáveis alertam para o facto de a economia ser muito mais do que isso. “O Governo demorou demasiado tempo a reestruturar o Estado e fez cortes generalizados, dolorosos, pelo que as pessoas sentiram tudo diretamente na pele. É natural que começassem a achar o futuro terrível”, defendeu Nogueira Leite. A verdade, na sua opinião, é que “a governação não foi tão boa quanto as pessoas estavam à espera”.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, o mais relevante na recessão foi o facto de as medidas de austeridade terem ultrapassado aquilo que a troika e o Governo tinham previsto. “Ninguém tinha antevisto estes efeitos na economia portuguesa”.

Por outro lado, acrescenta o comentador da TVI, “os jornalistas e comentadores ainda não têm o poder de anunciar medidas de política económica, de aprovar orçamentos, nem de anunciar recuperações económicas. Esse poder ainda é dos políticos. Se os jornalistas e comentadores ampliaram esses efeitos dos atos dos políticos, convém não esquecer que tudo começou nesses mesmos atos”, concluiu Marcelo.

Já António de Sousa diz não poder estar mais de acordo com Passos Coelho e com Carlos Costa. “Ficamos mais medrosos com o que ouvimos e com o que vimos, por isso é que não gosto de falar destes assuntos com a comunicação social”, disse.

O antigo governador do Banco de Portugal diz ter idade suficiente para se lembrar da crise dos anos 80 e de não ter existido tanto pessimismo como agora. “Na altura, houve salários em atraso, mas as coisas eram diferentes, não havia internet, não existia o consumo de informação que há hoje. Efetivamente, desta vez, a reação das pessoas foi muito pior do que o que se esperava”. A título de exemplo, António de Sousa relembrou o caso da TSU, que ocorreu há cerca de um ano.

Este professor preferiu não atribuir responsabilidades: “Seguramente terão existido erros de várias partes para este pessimismo acelerado”, admitiu.

Há menos primeiro-ministro no Governo

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Onde está o Paulo Portas hábil, o político esperto e inteligente? O problema pode – deve – ser meu, admito, mas, nos últimos tempos, mais concretamente, desde a triste irrevogabilidade do agora vice-primeiro-ministro, que não sei por onde anda esse Paulo Portas.

A conferência de apresentação que fez de apresentação dos resultados do oitavo e nono exame da troika foi só o último ato falhado deste governante. Falou, falou, fez questão de conduzir a conferência e não disse nada, não explicou, remeteu a ministra das Finanças para um papel secundário, quis mostrar que manda, e agora, as medidas de austeridade, as mesmas que Paulo Portas garantiu que não existiam, são testadas nas páginas dos jornais.

Sim, a ideia que passa é a de que este Orçamento do Estado, aquele pelo qual os mercados anseiam, foi tudo menos bem estudado.Improviso parece ser, neste momento, o nome do meio de Paulo Portas.

Não é de incerteza que Portugal precisa, é, antes, de confiança no Orçamento do Estado para o próximo ano, aquele em que, supostamente, Portugal ficaria livre da troika de credores.

E tudo isto acontece com a permissão do primeiro-ministro. É com a permissão de Passos Coelho que existe menos ministra das Finanças neste Governo, que existe, inclusive, menos primeiro-ministro neste Governo.

Passos nunca primou pela liderança forte, nunca se sentiu que este primeiro-ministro dirigisse com pulso o seu Governo, mas, ultimamente, a situação agravou-se. Com a saída de Gaspar, que era uma espécie de primeiro-ministro das Finanças, e com a promoção de Portas a porta-voz do Governo nas relações da troika, assumindo, assim, uma série de funções conflituantes com as de Maria Luís Albuquerque, já para não falar na derrota nas Autárquicas e da polémica que envolveu Rui Machete, a fragilidade deste Executivo está posta a nu.

É assim que Passos Coelho quer concluir a legislatura e governar mais dois anos?

Moreira, Costa e Isaltino

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

É evidente a derrota do PSD e de Passos Coelho e sabemos que as consequências não tardarão, mas, da noite eleitoral, mais do que antecipar se este primeiro-ministro terá o mesmo destino de Guterres, se será cilindrado por Rio, se, agora, é que estamos a um passo do segundo resgate e de eleições antecipadas, prefiro falar de Rui Moreira, de António Costa e do presidiário Isaltino Morais. Foi com estes nomes que acordei hoje de manhã, é deles que vale a pena falar.

Rui Moreira ganhou porque é aquilo que as pessoas querem. Um independente, sem partidos, ou melhor, sem estes partidos, sem passado político, sem politiquices, sem manchas, pronto para começar do princípio e fazer acreditar que, como ele próprio disse, “é possível fazer diferente”.

Ontem, os portuenses responderam da melhor maneira às propostas irresponsáveis e populistas de Luís Filipe Menezes, o candidato do austero primeiro-ministro. Ainda é cedo para saber como vai correr a liderança de um independente na segunda maior cidade do país, mas para já, Moreira conseguiu um milagre nos dias que correm, inspirar-nos, e isso não é pouco. Venham mais.

António Costa esmagou, teve maioria absoluta em Lisboa, derrotou Fernando Seara, e mais do que isso, foi ele o rosto da vitória do PS. Por mais que se esforce, António José Seguro não é o líder que os socialistas querem, que os socialistas precisam. Por mais que queira e tente, não foi ele o vencedor da noite. Costa continua a ser, pela carreira política e imagem de estadista, candidato à liderança do PS e candidato a primeiro-ministro. Ontem, possivelmente, Seguro já pensava na pré-campanha, mas haverá, seguramente, quem trabalhe em alternativas.

Isaltino Morais está preso desde Abril, mas o movimento (Isaltino Oeiras Mais À Frente), liderado pelo seu vice, Paulo Vistas, ganhou as eleições em Oeiras. Neste caso, um dos concelhos mais ricos e desenvolvidos da Península Ibérica decide eleger para Presidente da Câmara um movimento que tem por trás um presidiário, acusado dos crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais (convém lembrar).

Pelos vistos, para certas pessoas, de pouco importa a forma como a obra de certos autarcas aparece feita. Ontem, festejou-se a vitória deste movimento em frente à cadeia onde Isaltino está detido. Que vergonha!

Votar em Portugal tornou-se praticamente igual ao litro

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

É verdade que, em teoria, nas Autárquicas, deveríamos concentrar-nos no local e guardar para depois os protestos em relação ao Governo, sob pena de não virmos a ter quem queremos à frente das nossas freguesias e concelhos. Mas, depois, na prática, sabemos que não é assim, que o significado do nosso voto acaba por ser uma mistura entre o nacional e o local. O que ainda não sabemos é qual será o peso, nestas autárquicas, do protesto no momento de votar. Qual será a importância de Passos Coelho ou de António José Seguro para um eleitor de Fernando Seara ou de António Costa? Qual será a percentagem de votos em branco, ou da abstenção? Haverá um recurso significativo do chamado voto útil?

Respostas, só domingo à noite, mas antecipo uma elevada abstenção. É uma sensação, que já explicarei, por isso, vale o que vale, mas primeiro, uma certeza: ficaremos longe dos níveis de participação das eleições do último fim-de-semana na Alemanha, onde 70% dos alemães reelegeram Angela Merkel.

Em primeiro lugar, porque as eleções do próximo domingo não são lesgislativas, depois, porque não nos está no sangue, não costumamos votar tanto, portanto, não há-de ser agora que o vamos fazer, mas também porque, por cá, não temos nada que nos mobilize assim. Os contribuintes alemães encontraram na chanceler, irredutível na austeridade com os países do Sul, a melhor defensora dos seus interesses. Já os portugueses têm em Passos Coelho, aquele que, nos últimos anos, lhes reduziu brutalmente o rendimento disponível.

Os eleitores portugueses estiveram nesta campanha eleitoral ainda mais desligados dos políticos e vice-versa. Debateu-se pouco e o costume, falou-se de segundo resgate, de reestruturação de dívida, de juros e da nossa condição de país que tão cedo não sairá da crise. Governo e oposição não mobilizam, talvez porque já ninguém acredite que possam fazer grandes coisas, que as grandes decisões dependam deles – dependem mais da Europa de Merkel.

Para os portugueses, votar em Portugal parece ter-se tornado praticamente igual ao litro. Se por absurdo, o nosso voto valesse na Alemanha, acredito que quase ninguém ficaria em casa, arriscar-me-ia a dizer que Angela Merkel conseguiria arrancar mais votos que Passos e Seguro juntos. Mas assim, este domingo chegará com a contra-programação da TVI, a estrear mais uma Casa dos Segredos, em plena noite eleitoral. Sinais dos tempos.