A vida social de Vítor Bento

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Anteontem ao almoço, falava-se sobre a crise no grupo Espírito Santo, mais concretamente sobre Vítor Bento, o novo presidente executivo do BES. Entre deliciosos pedaços de sashimi, num japonês paredes meias com o escritório do mais recente banqueiro português, considerou-se, às tantas, que Vítor Bento dificilmente será uma solução de longo prazo para o banco. Uma das razões apontadas foi o facto de, supostamente, Vítor Bento não ter uma vida social intensa e de, alegadamente, “viver muito só ele e a mulher”.

Nestas décadas de Ricardo Salgado e Jardim Gonçalves, habituámo-nos à ideia de que administrar um banco é, principalmente, gerir e manter uma intrincada rede de interesses financeiros, empresariais, sociais e políticos, que é, sobretudo, almoços e jantares, cocktails e vernissages, ver e ser visto, enfim, um infatigável networking.

Como se fosse inconcebível um banco grande e lucrativo ser liderado por alguém que prefere limitar, ao mínimo, a parte forçada e interesseira da sua vida social.

É verdade que ser banqueiro é muito mais do que acautelar depósitos, avaliar risco e emprestar dinheiro, mas sabendo como se teceram e tecem as teias no mundo dos negócios – e da política -, esta característica de personalidade poderá ser, a confirmar-se, uma grande vantagem de Vítor Bento.

Os amiguismos, os excessos de confiança, que depois resultam em inexplicáveis presentes de milhões de euros, os abusos de confiança, os favores e a filosofia do uma mão lava a outra não só representam o que de mais desesperante existe no homem, como se pode traduzir, em termos muito práticos, em negócios terríveis.

Por exemplo, a excessiva exposição de alguns bancos a acionistas e amigos – a entidades relacionadas – é, em tempos de crise, a face mais visível de graves erros de gestão. Muitas vezes, até, as competências sociais servem apenas para tentar disfarçar a fatal incompetência.

O caderno de encargos de Vítor Bento passa, acima de tudo, por restaurar a credibilidade do BES, a confiança dos seus clientes, passa por reafirmar o banco enquanto um dos principais players do sector, por pô-lo a competir, passa por fazê-lo crescer e voltar aos lucros, nem que para isso tenha que deixar muitos telefonemas por atender, muita gente pendurada para almoço, muitos lugares vazios à sua espera.

Vítor Bento não sobreviverá sozinho, mas pode bem dispensar os amigos do costume. O não, não o automático das crianças, é a resposta mais difícil, e, em muitos casos, a única possível. No início, estranha-se, mas acredito que funciona. Da minha parte, quanto menos amigos conhecer a Vítor Bento tanto melhor.

O risco da improbabilidade

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Opinião

As náuseas são iguais quando assisto aos que pontapeiam quem já está caído no chão, ou quando vejo filas de babados ajoelhados para um beija-mão. E é, sobretudo, isto que me resta dizer sobre o espectáculo à volta da crise no Grupo Espírito Santo (GES), que esta semana acumulou mais uma improbabilidade – Ricardo Salgado foi detido, na qualidade de arguido, para interrogatório, no âmbito do caso Monte Branco.

Os sinais de que a supervisão e a justiça estão a funcionar existem e, se assim for, isso basta-me. Os crimes sob suspeita são graves e aquilo que se exige é, como sempre, um julgamento justo e um tribunal independente. E rápido, muito rápido. Sob pena de ser tarde de mais e as repercussões no próprio BES e na economia se tornarem insustentáveis.

A queda de Ricardo Salgado – outra improbabilidade – é, afinal, muito mais do que a ruína de um rico todo poderoso: é a falência de um nome, é a descredibilização de uma marca. Neste momento, alguém sabe o que se passa na cabeça de um cliente do BES?!

A lei protege a maioria dos depositantes, o Banco de Portugal garante, a toda a hora, que o banco está sólido e que uma coisa é o GES, outra coisa é o BES, mas só Vítor Bento e a sua equipa saberão, na verdadeira medida, qual o real impacto desta crise no negócio do banco. Imagino até que, se pudesse, o novo presidente executivo do banco – e o próprio Banco de Portugal – já teria refundado o BES, a começar por uma mudança de nome. Espírito Santo é, neste momento, tudo menos um nome recomendável.

E há mais. A falência de Ricardo Salgado e da família Espírito Santo é, também, mais um sintoma da fragilidade do país, de um país sem capacidade de investimento, onde não há dinheiro, onde os empresários vivem com a corda do endividamento ao pescoço e onde as empresas passam, uma atrás da outra, para as mãos de quem pode. Se não estava bem, ainda pode ficar pior, o país.

Não é família, é familiaridade

Crónica publicada no Dinheiro Vivo

Opinião

Alexandre Soares dos Santos tem dito muitas coisas, mas há dias tocou na ferida: as broncas que envolvem a família Espírito Santo têm um impacto brutal na credibilidade das empresas de cariz familiar.

A vida está cheia destas crises de que fala o dono do Pingo Doce, de casos que terminam tão mal que, no final, não resiste nem negócio nem família.

Existem, aliás, estudos sobre o tema. Ricardo Reis, que escreve nesta mesma página, citou, na semana passada, uma investigação académica recente, conduzida pelos economistas William Mullin e Antoinette Schoar, sobre o que distingue as empresas familiares das outras.

No inquérito dirigido a 800 CEO das maiores empresas de 22 mercados emergentes – as empresas familiares existem em menor escala nos países mais desenvolvidos -, conclui-se, por exemplo, que os gestores profissionais de empresas não familiares substituem com maior frequência os quadros de topo, ou resistem menos a fechar negócios com viabilidade duvidosa.

Mas o que Soares dos Santos não disse é que o que se passa no GES e no BES também poderia ter acontecido num grupo onde, da portaria até ao último andar, ninguém fosse da família de ninguém. Bastava que existisse familiaridade. Entre pais e filhos, entre irmãos e primos, ou apenas entre amigos e sócios.

Henrique Granadeiro não tem, que se saiba, qualquer relação familiar com os Espírito Santo, mas é reconhecida a forte amizade que o liga a Ricardo Salgado. A PT teria investido, há poucos meses, quase 900 milhões de euros de papel comercial da Rioforte (empresa do grupo Espírito Santo) se não existisse qualquer relação pessoal entre o chairman da PT e o histórico banqueiro? Provavelmente, não.

Terá sido esta amizade a tramar a PT. As amizades não justificam, mas explicam muitos maus atos de gestão por estas empresas fora. Ora, isto num país do tamanho de uma gamela, onde o amiguismo está entranhado nas mais diversas áreas da nossa vida, pode assumir proporções verdadeiramente preocupantes. É também por isso que são manifestamente exageradas as notícias do sucesso de Carlos Costa.

Antes fosse uma guerra de primos

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

A situação no Grupo Espírito Santo (GES) e no Banco Espírito Santo (BES) é preocupante, mas não por causa das guerras familiares. A zanga entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi é apenas a parte mais mediática e excitante do problema, mas é, de longe, a menos grave. A história está cheia de casos de famílias desavindas, de negócios familiares que se desmontam, ou morrem porque os sócios – familiares, ou até amigos – se desentendem. O poder, mais do que o dinheiro, é motivo primordial de ruturas.

O que é alarmante – e distinto – nesta crise entre os Espírito Santo é o que está por detrás desta zanga entre os dois banqueiros, porque é que o presidente do BES e o presidente do BES Investimento romperam e porque é que deixaram de confiar um no outro.

A confiança mútua, vantagem que existe entre familiares face a outros parceiros sem relações pessoais, perdeu-se no GES e no BES e não se sabe porquê. É possível, mas pouco provável, que a guerra, que tem saído ao bochechos na comunicação social – a compra por parte da PT ao seu principal acionista, o BES, de 900 milhões de euros (!) de papel comercial e apenas o último copo servido ao país – se deva apenas ao facto de, subitamente, Ricciardi querer tomar o lugar de Salgado e de este estar, aos 70 anos, absolutamente agarrado a uma cadeira. O poder cega, mas não é crível que dois experientes e responsáveis banqueiros tenham atitudes comprometedoras do futuro de um banco com a dimensão e importância do BES.

As irregularidades detectadas na Espírito Santo International, os graves problemas financeiros no Grupo Espírito Santo, as suspeitas da prática de crimes de mercado são explicações mais plausíveis para a crise no grupo. E poderá não se ficar por aqui. A guerra entre Salgado e Ricciardi e as divergências sobre a sucessão no BES é consequência destes factos e não o contrário.

É absolutamente incompreensível, a ser verdade, que o Banco de Portugal tenha precipitado a sucessão de Ricardo Salgado só porque este atingiu os 70 anos e há um primo que lhe quer o lugar, ao mesmo tempo que é disparatado pensar que Carlos Costa não quer um Espírito Santo à frente do banco só porque sim, se a família continua a ser o principal acionista da instituição, com 25%, como ainda é incrível que a escolha para sucessor, apoiada pelo supervisor, recaia sobre o braço direito e esquerdo de Salgado, Morais Pires.

A escolha do CFO de Salgado é garantia de continuidade, uma solução de compromisso, a saída possível quando não se pode mudar os acionistas do BES. O Banco de Portugal de Carlos Costa pode começar a rezar para que tudo dê muito certo neste novo-velho BES.

O Natal dos banqueiros

Lisboa - Contas BES
[Fotografia de Gustavo Bom/Global Imagens]

Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo (BES), acaba de proferir esta bela merda de frase: “Os banqueiros vão passar um Natal complicado”.

Não sou das que vociferam, por tudo e por nada, contra os banqueiros, entendo a vida das empresas, a sua legítima procura pelo lucro, até porque, no final, os trabalhadores agradecem, mas há limites para a ridicularia. Nenhum banqueiro pode dizer que vai ter um Natal difícil, mesmo em sentido figurado. As pessoas, assim, nunca vão entender, pior, vão gozar e afastar-se, cada vez mais, dos empresários, banqueiros e governantes.

Pronto, era só isto, queria mostrar a minha indignação pelas cenas infelizes que vão sendo ditas, à mesma hora que, como contava a Catarina, 10 pessoas vasculhavam no lixo do Pingo Doce da Ferreira Borges…

Tenham só um pouco mais de bom senso, pensem antes de abrir a boca, por favor!